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30 de abril de 2018

A Rosa Doente - William Blake



Ó Rosa, estás doente.
O verme invisível
Que voa à noite
Na tempestade uivante:

Achou tua cama 
de alegria carmesim:
e seu amor secreto e obscuro
destrói tua vida.


arte::: aqui
tradução::: pedro luz


16 de março de 2018

Encanto


duas mãos
de sal
                 vem a mim
                        que nem maré

envolvendo-me

     no círculo mágico

que é o seu abraço.


arte::: francisco de goya


19 de fevereiro de 2018

Tarde de Maio - Carlos Drummond de Andrade



Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de
seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não-perceptível, e tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh'alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza sem fruto.

Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto, e passa...
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.

Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.

E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.

Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita sem máscaras?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.



arte::: não consegui achar a fonte (weheartit).

30 de dezembro de 2017

Sobre o Envelhecer


tudo que escrevo me é endereçado;
porque eu, da forma que me sonho,
sou uma alguém sempre distante.

as palavras teimosamente tendem a fugir
das algemas do sentido que habita seus autores,

                                         para se tornarem mil outras coisas,
                                                     para mil outras pessoas e, quem sabe,
                                                         quando cansadas de correr
                                         ao redor de si mesmas, 

                                                       se façam sentidas da mesma forma entre duas pessoas,

                                                                                       fenômeno raro, mas não impossível.

as minhas palavras costumam fugir de mim para 
virarem abraços. 
                                     é por isso que eu escrevo.

abrir a janela do poema e dar de cara com um outro alguém que diz ser eu e me acusa de insanidade.

é por isso que escrevo. dar flagrante no passado e sair corrido memória adentro; 
                                      não tem preço, e nem outro jeito de fazê-lo, sabe?

eu espero que você saiba - agora ou depois . talvez já está sabendo a esta altura e te subestimo.

subestimo o futuro por me colocar num pedestal e achar que não mudarei
(já mudando à medida em que escrevo).

"eu te entendo." - é a contrapartida que imagino de meu interlocutor.

"você é absolutamente louco" - segundo pensamento na sucessão.

"...mas eu te amo tanto" - seria um bom arremate.

às vezes morro de vergonha quando te imagino me lendo e sei que nunca te lerei sendo quem sou agora. te escrevo por amor, nada mais.

sinta-se abraçadíssimo,

beijos mil.



arte::: "Self deceit 1", Francesca Woodman


10 de outubro de 2017

do amanhã


o luzir trêmulo e desencarnado da madrugada profunda,
dos olhos fundos da manhã, encarava fundo o meio-dia e
os seus demônios. 

              já faz muitos anos desde que eu me permiti
                                                               amar alguém.

      eu sou muito só - sem um grande amor para dar
      em troca porque este Amor já foi tomado de mim;
      atenho-me, ou ative-me, aos meus excessos de paixão,
      harpias laceradoras de peitos -, 

         eu sou vazio - ou pelo menos, à medida em que escrevo,
      estou vazio e aos poucos me encho do alguém
  que imagino ser.

   faz muito tempo desde de que eu me propus à entrega.
   Desde que, segundo a tradição woolfiana, olhei para o céu e pedi à 
   Estrela que me consumisse por completo. 

   eu ainda não sei amar direito.
   eu costumava ser melhor nisso. 
   eu costumava me dar ao outro por completo, com os olhos cheios de lágrimas - por dentro -, e beijar-lhe a testa com o coração completamente apertado.

hoje choro à vista de quem quiser ver - porque amo quem
quiser ser amado. 
hoje eu mereço o amor, acredito nisso. 
acho que sempre acreditei mas só agora tive coragem de admitir.
porque eu fui criado para acreditar no amor, mas eu sou um rebelde quase sempre sem causa.

ainda assim sei que aquilo que tenho para dar é inegavelmente imaturo.

 eu sou inseguro, eu me ensinei a desaparecer no meio do meu 
grande espetáculo, no entremeio dos meus atos finais. 
 eu me ensinei a ser os espaços jamais ocupados e a ideia do que as coisas 
       poderiam ser - nesse sentido o meu amor é maduro, porque é 
       ideal e implacável.

lembro-me do futuro. debruçado sobre a janela diante de mim, 
absolutamente exausto, dou 
 afeto - que transforma e cura - a alguém.
  amo profundamente este alguém, não porque posso -
          eu já não me acho mais no lugar de poder mais nada -, mas porque 
                                                                                                  quero, e amo.


arte::: não achei o nome d@ artista


7 de setembro de 2017

Esta Noite Posso Escrever os Versos Mais Tristes - Pablo Neruda



Esta noite posso escrever os versos mais tristes.


Escrever, por exemplo: “a noite está estrelada,
e tremulam, azúis, as estrelas, à distância”.

O vento da noite gira no céu e canta.


Esta noite posso escrever os versos mais tristes.
Eu a amava, às vezes ela também me amava.

Em noites como esta a tinha em meus braços.
A beijei tantas vezes sob o céu infinito.

Ela me amava, às vezes eu também a amava.
Como não ter amado seus grandes olhos fixos.

Esta noite posso escrever os versos mais tristes.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa ainda sem ela.
E o verso cai à alma como o orvalho ao pasto.

Que importa que meu amor não pôde mantê-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. À distância alguém canta. Ao longe.
Minha alma não se contenta com ter perdido-a.

Como se tentasse se aproximar, meu olhar a busca.
Meu coração a busca, e ela não está comigo.

A mesma noite que branqueia as mesmas árvores.
Nós, aqueles de então, não somos mais os mesmos.

Eu não a amo mais, é verdade, mas o quanto a amei.
Minha voz buscava o vento para tocar seu ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes de meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.

Eu não a amo mais, é verdade, mas talvez eu a ame.
É tão curto o amor, e é tão longo o esquecer.

Porque em noites como esta eu a tive em meus braços,
minha alma não se contenta com ter perdido-a.

Ainda que esta seja a última dor que ela me cause,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.



arte: detalhe da pintura "A Noite Estrelada" de Van Gogh
tradução*: Pedro Pinto (aka @pruxto, aka euzinho)


*nota de tradução: Eu traduzi me baseando no original em espanhol. Fui ler traduções em inglês e não gostei muito, achei tudo muito simplório. Acredito que a similaridade do espanhol com o português faça com que esse poema pareça, ou realmente seja, mais expressivo - em relação a traduções para outros idiomas -, até mesmo as ruins (que são a grande maioria que encontrei na internet).

11 de julho de 2017

Sobre meu Pai


catedrático demais
e urgente, no silêncio que habita o entreolhar
entre casca e caranguejo, baixa a cabeça
e suspira fundo.

sonho orvalhado na pele branca
de erê. pé sujo de terra, sonho em
ser gente na ponta da língua, feijão
de leite quente para corpo frio de suor.

mora no mangue mas só brinca no rio,
         como quem só bota o pé em sonho
         como quem nasceu encantado e
consciente disso, se dedica ao sacerdócio do
                                                           desencanto.

saber de ti, para mim,
é três perguntas na lata:
"como você tá?",
"o que tem feito?" e
"você realmente está bem?" -
que são, no fim, um "eu te amo"
engasgado.

disparate dizer que não vai ser o que quiser quando crescer.
                dizer que não sonha com amor
                que não sabe o que é crescer.

caçula de iemanjá ama tanto que não se cabe,
ama tanto que não sabe dizer adeus,
que por ser o último dos primeiros
nunca aprendeu, e nunca quis aprender
a dizer adeus.

quando você não olha para mim,
ou olha de soslaio, como quem não
me quer, como quem sonha em me deixar
e sabe que vai me deixar

                                 eu viro areia.

todo dia eu sonho um alguém para mim.

agora que somos só as lágrimas
                                     das lágrimas
                                            no rio que te escorregou
                                                 infância afora,


                                         sinto que devemos dizer adeus.


eu meço os nossos encontros
     pela respiração. pela ansiedade
         que nasce e morre nos seus olhos
 toda vez que você me vê chorar.

você soluça,
chorando igualmente inconsolável
                                                             ao dizer adeus
  como quem perde,
      para sempre, um alguém querido.

mas saiba para sempre, que por ser querido,
serei eternamente seu.

Arte: Pablo Picasso     


5 de março de 2017

Sobre os Meus Mestres

| Ilustração: "Swimming Lovers" (1984) por Eric Fischl |
Eu acho que atraio mentores. Acho que me olham, vagando, escrevendo e arrancando páginas e páginas do caderno florido - juntando as sobrancelhas em frustração -, e sempre perguntando a alguém qual o próximo passo nunca dando-o - às vezes, se bobear, dou dois para trás, aterrorizado por aquilo que virá e eu desconheço. Eu acho que os mentores se surpreendem por alguém tão perdido saber tanto e ao mesmo tempo tão pouco. Acho que querem me tirar da minha concha, acho que querem pressurizar este vivaz pedaço de carvão até obterem um diamante exausto. Eles querem sangue e palavras dóceis até que eu esmaeça nas páginas - mal impressas em fino, quase fantasmagórico, papel - de um edital para seleção impossível 3000 para 1. Mentores fazem o que fazem por amor - a si próprios e a seus trabalhos.
Ainda assim sou todos os meus mentores. Eu sou muito uma professora - essa genuinamente interessada em ajudar - me dizendo para não escrever sobre amor, "porque ele passa". Em um primeiro instante me impressiono e encontro conforto nestas palavras: sofria por amor há algum tempo, silenciosamente, quase como quem sofre de um aneurisma - sabia que ele estava lá, e não era o desamor que me doía, mas sim a certeza de sua existência pulsante e incômoda, que me gelava os ossos. Logo depois, de coração aberto a novos amores, a paixões incandescentes, percebo uma coisa: o amor é uma consequência desta cidade. 
Como pode aquele que se diz cronista ou poeta, que desliza pelas calçadas entre palavras e melodias, não escrever sobre a substância do mundo? Sonhos de amor, debaixo do meu colchão, trocam beijos tímidos com os rostos nos céus, me encarando, carrancudos como a própria noite, atentos, tentando enlaçar meus desejos mais ocultos ao ensaio do dia seguinte. 
Eu durmo e sonho com amores que estão por vir. Eu intuo que me apaixonarei de novo, e acerto - ainda ontem me apaixonei pelo reflexo de um rapaz que tenho encontrado em todo lugar: na faculdade, nas festas, nos bares, na balaustrada que emoldura a praia da Barra. Me apaixonei mas hoje já nem me lembro mais dele, como o cachorro que larga o osso enterrando-o, para remexer depois. Prefiro me resignar a omisso e platônico, penso, mas ainda assim apaixonado.
Penso que devo escrever sobre amor porque mesmo que hoje já não ame mais aquele cara, por quem eu era apaixonado ainda ontem, eu ERA apaixonado por ele, e isso importa. As nossas histórias importam, revisitá-las importa. Quando eu envelhecer, com carne e prazer agora aposentados, flácidos e preguiçosos sob o signo da minha existência, eu vou me alegrar retornando, ainda que em espírito, às minhas histórias - se a esta altura a memória também não resolver se aposentar.
Acho que atraio gente com muito a dizer. Às vezes cansa. Acho que preferiria o silêncio ao invés disso; mas a vida não é silenciosa, já que o silêncio - onde as coisas murcham, trancafiadas em si mesmas - tem parte com a morte. Sabendo disso prefiro falar, ignorante como sou, cansado como estou, e atraio, pretensos mestres com uma figura que guarda grande entendimento mas não vibra ao compartilhar seus saberes. Resistente como sou e temeroso da silenciosa e solitária morte em mim, passo, incansavelmente, por movimentos iniciáticos para retornar ao entendido-aprendiz que era quando parti. Ouroboros.
Eu acho que sou assim por temer a solidão. Não quero ficar só lavando memórias neste rio de pedras. Eu sou assim mais por medo do que por convicção; mas afinal: o que é convicção? Antes de tudo é preciso entender o que é um herói - daqueles das histórias em quadrinhos. Um herói é uma intenção, um ponto de luz naquilo que antes era vazio, uma direção - igualmente são os vilões que o rodeiam. Heróis e vilões significam uns aos outros e compartilham de uma só característica: tem objetivos claros, todos são convictos de algo. Poderiam os homens ser heróis ou vilões? A resposta é, obviamente, não. São apenas humanos travestidos de heróis ou vilões buscando jornadas melhores - "o importante não é o destino, mas a jornada", já me disseram tantas vezes que passei a acreditar. Eu interpreto vinte e quatro horas por dia e prospero, sempre que dá, na minha surrada carcaça de bondade.
Todos os meus mentores são heróis das próprias intenções. Eu sou o herói dos meus sonhos - embora vez ou outra me falte força para sequer levantar da cama.  Estou exausto. Acordo da cama e estou exausto, alguns minutos atrás paralisado, trêmulo de sonho incômodo. Alguns dias estou exausto. Nesses dias nunca herói, quase que nem mesmo humano, apenas mergulho no sofá e encaro a televisão para fora das almofadas. "Existir basta, amanhã eu vivo" - penso nessas horas.

Obrigado aos que vieram e aos que virão. Espero por vocês, então esperem por mim também.


8 de dezembro de 2016

Terapia I


Quase osso,
ouvindo o fel
pingar na
banheira que
sou, no lamaçal
de desamor
em que eu
me acabo;

o último ato
desta eulogia
é uma página
inteira
dissolvendo-se
em lágrimas.

Padeço,
principalmente
nos últimos
tempos,
de um estar-
cônscio-de-mim
tremendo

e ainda me
pego, às vezes,
quando a noite
resolve mordiscar
o meu bem-estar,
trêmulo, choroso,
por não
saber lidar com a
dor que é me
conhecer em
demasia.

Eu não sei o
porquê,
só sei querer,
mais e mais;

quem sabe
eu não conheça
algum outro
rapaz que
preencha
o vazio que
você me deixou.

Quase morto,
me pego nos
braços e retraço
um alguém que
o tempo quase
apagou.

21 de novembro de 2016

Eulogia a Maria de Nazaré


A Noite comeu o
coração de Maria
distanciando-a
de suas certezas.

A chave ainda está
na janela. Está lá
fora, está nos bares,
a chaves está na
distância a ser
percorrida.

"Deixai toda a
esperança, vós
que entrais" -
só assim poder-se-ia
prosseguir por um
novo caminho.

À noite, Maria
açoita as estrelas
com um flagelo de
lágrimas;

também sois,
entre as mulheres,
as lágrimas, não
é mesmo, Maria?

eu também choraria,
se pudesse.

Maria, em quem você
desaguou? Onde é
que as lágrimas, amas
de leite do mundo,
represaram?

Maria, no fim das contas,
quem te tomou como
filha e não como mãe?

Sente a ausência
rasgar-lhe a pele
e o silêncio
avolumando-se
em sua garganta.

Triste é ninguém
perceber a agonia
de uma mãe em luto.

Expurgai do mundo
este coração partido
numa torrente de
lamentações.

Na memória, a solidão
a pino só não tosta
a própria existência
pelo afeto que sempre
lhe servira de salvaguarda.

5 de novembro de 2016

Sobre o Crescer


é você quem nocauteia sonhos e esmigalha
o tempo com as mãos trêmulas.
num soerguer de sobrancelha e  suspiro
longo, a tua desaprovação começa a crepitar
e a ouço do outro lado da sala - de longe
te observo pôr este cômodo inteiro abaixo
com os olhos de lince brilhando em fúria gélida.

incômodo a pino: percorro o caminho das tuas marcas de
expressão ressaltadas pela feição contrariada, dou de cara
com o teu estar aqui a contragosto.
desde pequeno aprendi a disfarçar não disfarçando -
"atrás do arranha-céu tem o céu, e depois tem outro céu
sem estrelas". Eu nunca fui, e estou certo de que você
também não, as superfícies.

O que você fazia quando eu lhe assombrava, às quatro da 
manhã, com a minha ausência? Pergunto pois a tua também 
me assombra, espectro.

O meu coração é as minhas marés e, por conseguinte,se faz
a minha dificuldade de ser. A inconstância é a certeza que
está por detrás da sobrenatural candura do meu silêncio.
Não espere um respostas do pêndulo, confronte o espelho
e terá metade de uma certeza - a outra parte achará em
mim, neste mesmo silêncio que te incomoda.

O óbvio só existe para nortear a verdade, mas quase
nunca a abarca em sua inteireza.

A indecisão, no meu caso, não é de forma alguma falta
de sensibilidade. Sou muito sensível com o outro e,
principalmente, comigo mesmo - por isso postergo as
verdades que me rasgam em dois ao serem ditas.
A verdade, aqui, acaba em nós dois, separados.

Hoje em dia eu sou muito os meus remendos, mas
acho que todos somos de alguma forma.

Te reencontro no caos, neste limbo cármico que, por
alguma razão desconhecida, continuamos a retornar.
No fim do dia lhe dou as mãos, contamos até dez e
encontramos um no outro um bálsamo para as dores
e embaraços do crescimento.

No fim do dia retorno para a intermitência do amor da
minha vida, sorrindo pelos cantos e aliviado por conseguir -
pelo menos desta vez - retornar.

27 de setembro de 2016

Quebranto


esboço o passado no
espelho sobre a tua
cama - espelho tão
cansado do mesmo
que parece quadro.

os meus dedos percorrem
o perigo que é estar aqui,
curvilíneo apego tremeluzindo
no abrigo que se faz
em nosso abraço.

dedilho as possibilidades
escorrendo pelo seu corpo
e te observo sob a meia luz
que transpassa a cortina.

você é a menina dos olhos
deste coração partido.
ainda que saiba da crueldade
destes lábios de fúria perene
me rendo à doçura do teu beijo.

mais uma vez, no amassado de lençóis
com você a tiracolo
e o sol se pondo assim como
todas as intenções saciadas.

te tomo em meus braços
num aperto ansioso e nostálgico
indo embora para além túmulo
do que nos tornamos.

eu amei você,
mas o seu grande amor
sempre foi o espelho.


21 de agosto de 2016

Do Rancor e do Que Não é Constante




Eu odeio você. Eu odeio quando você aparece pelas minhas costas e me envolve no infinito do seu abraço, nas pressões descompassadas que põe sobre meu corpo, no roçar contra mim ansiando pela rendição da minha boca aos seus impulsos, sedento por um mísero gemido. Eu odeio gemer para você; odeio os seus beijos, odeio os seus milhares de beijos que sempre chegam até mim como os últimos. Eu odeio como cada dia é o último, eu odeio como a gente morre todo dia para voltar na manhã seguinte a ser infinitos por um punhado de segundos. Eu odeio o vazio que se sucede quando você me abandona todas as manhãs. 
Eu odeio ter que acordar de madrugada, após dormir por pouquíssimas horas, e ir fechar os olhos na varanda tentando me convencer de que estou meditando. Eu odeio não conseguir meditar, odeio a minha fúria mental. Odeio ter o meu sono interrompido às quatro da manhã para me ocupar com premissas inconclusivas a respeito do nosso relacionamento. Eu odeio que você não se ocupa com premissas inconclusivas a respeito do nosso relacionamento. Eu odeio ser insone por não conseguir digerir a ideia de estar neste relacionamento. 
Eu odeio você. Odeio cada singelo detalhe em você. Odeio as suas mãos sobrepondo as minhas num afetuoso eclipse de intenções, odeio quando o seu polegar desliza da minha bochecha aos meus lábios e os contorna numa luxuriosa elipse. Odeio tocar o seu corpo em resposta. Odeio como minha mão escorrega de seu peito numa queda lenta e imoral. Eu odeio te tocar e não me sentir mal por isso. Eu odeio não recuar. 
Às vezes acho que você sabe que eu te odeio. Talvez tenha percebido na distância que invade o meu olhar todas as vezes em que eu lhe abandono na cama e me debruço na janela para ver o céu. O Céu me lembra de alguém que me ensinou a contemplá-lo, o Céu me lembra de quem eu tentava esquecer quando te conheci. O Céu me lembra de quem eu não esqueci. 
Eu odeio você por não me encantar da mesma forma de quem eu tento esquecer. Eu odeio você por se rebelar contra o meu querer e ainda assim me domar. Eu odeio você por não me despertar amor – pelo menos não o que eu aprendi a chamar de amor. Eu odeio você e odeio odiar você; acho que porque lá no fundo eu admito que você me mudou. Eu odeio gostar mais de quem sou hoje do que de quem era antes. Eu odeio admitir que a mudança não me dói, e para não pensar nas mudanças eu me ocupo odiando você. Odeio você. 
Eu odeio você. Quando grita meu nome e corre até mim, te odeio. Quando te recebo em meus braços, te odeio. Quando selamos nosso encontro com um beijo, te odeio. Quando me vejo mais uma vez dividindo os mesmos lençóis contigo, te odeio. Quando recomeço o dia e já me esqueci de tudo o que se passou, enquanto você dorme na cama ao lado, no primeiro raio de sol da manhã, te amo. Te amo mas só um pouquinho, só por uma fração de segundo, sussurro sob o Sol, sobre o teu sono, cê nem sabe, mas na calada da manhã te amo, até por demais.

15 de agosto de 2016

De-cisão



Escolho o terceiro;
no fim das contas
eu escolho o inver-
so do primeiro e fi-
camos assim: você
não liga pra mim e
eu não telefono, vo-
cê não é meu dono
e eu finjo estar nem
aí;

a gente finge que não se
conhece e até se esquece
de quando íamos na sorve-
teria fazer planos de viajar
por todo o nordeste.

você nem gosta desse gostar
de mim, não é verdade? eu sei
que nessa cidade não deve ter
ninguém tão complicado assim,
ninguém que finge o oposto do
reverso e quando é descoberto
nem se lembra mais do que fez.

ninguém que use camisa xadrez no
verão, que só usa bota, que tem a per-
na torta mas que não gosta que você
comente, que odeia que que você se
cale quando as coisas ficam complica-
das, que gosta de deixar as coisas com-
plicadas; que vive pensando no que seria
se não fosse

que gosta de sair só pra comer doce, que
vive correndo para cima e para baixo e 
quando aperta o passo é porque se pre-
para pra fazer temporal - aprendeu a con-
trolar o tempo franzindo as sobrancelhas -;
que nunca tem certeza estando irredutível
e que se faz impossível quando começa
a falar dos assuntos do coração.

eu sei que você nem gosta desse
alguém que nem se importa, mo-
rrendo de amores, calado, vez ou
outra te falando que você já deve-
ria ter partido; eu sei que a gente é
o tempo todo amigo mas vez ou ou-
tra é algo mais.

eu sei que você nem se importa,
e eu também não, mas ele, coita-
do, tá aqui do lado, pedindo para 
te madar um beijo, querendo sa-
ber como é que cê tá, doidinho
para marcar aquela saída, já cha-
mou umas amigas mas sempre
sente falta de você - a eterna man-
cha de quadro na parede do quar-
to das memórias, você.

a gente nem se importa, mas se
quiser aparecer qualquer dia, lá 
no bar das tias ou aqui em casa
não hesite em se aprochegar.
não venha com muitas expetati-
vas ou com as certezas definidas,
venha não se importando. Só estou
certo de que gosto de te ver chegar - 
com isso me importo, e muito.

13 de agosto de 2016

Dos Amores Que eu Escolho


Eu só amo o que não se perdeu. Tudo nesta vida está condenado a se perder, até eu mesmo - reencontrar algum caminho é uma das maiores provações. Eu só amo o que está só, ou pelo menos tento amar o que só anda só, não consigo. Eu não consigo amar um coração vazio, eu não consigo amar o que não aceita se perder - os corações são essencialmente vazios, nós é que teimamos em preenchê-los.
Falo muito de amor, é uma tendência a me repetir - o próprio amar é uma tendência a repetir -, a vida é um emaranhado de ciclos imperceptíveis. Falo muito sem chegar a um lugar definitivo, sou prolixo; hoje, mais cedo, falei indefinidamente até chegar à conclusão de que o que realmente me assustava era o dizer adeus, era abrir mão até mesmo da fala, eu sou uma vítima das minhas palavras. Falar de amor é não viver amor, o amor é mudo, táctil e recusa os porquês hospedados pelos escritores.
Eu só amo o que não se escreve. Não amo a dúvida porque esta é metade de mim, a outra metade eu não sei, e é esta a que eu amo. Eu sou um alguém inóspito, está nos olhos, dá pra ver nos olhos que falta uma coisa - onde você me procura como abrigo para o mundo lá fora eu sou a foice que assola o espírito, onde espera de mim terrores noturnos lhe cubro de beijos; eu sou um alguém inóspito às expectativas.
Eu só amo a paz que não me consome, aquilo que em mim é ausente - a paz na paz. Talvez seja porque eu espere que esse meu coração inquieto me leve a algum lugar melhor. Aqui mesmo onde sei que deveria frear a mente e aceitar o sossego não paro de pensar em você.

7 de agosto de 2016

Eu Tenho um Amigo


Eu tenho um amigo que vive com o coração na boca. Não gosta, mastiga a própria carne porque acha que a dor é uma forma de cura - se ilude. Faz alguns meses que se meteu no que gosta de chamar de amor; todos os dias, religiosamente, lambe o amargo entre os lábios e faz da língua lança e armadura. Beber o que o outro amargamente verte do coração, por esses dias, tem sido chamado de amor.
O meu amigo acredita nos finais felizes, e isto é evidente: dá pra ver nos olhos; nunca comentei, mas sempre percebi no melancólico crepúsculo refletido em seus olhos - à persistência do fulgor mediante o assombro da iminente noite damos o nome de esperança. O crepúsculo é uma esperança poente. Eu nunca o vi chorar - vez ou outra a voz embargava, talvez por vergonha do abusivo conto de fadas ou quem sabe com medo de um possível final infeliz, mas sempre recuperava a habitual e frágil graciosidade -, ainda assim eu sempre soube que as lágrimas não lhe eram estranhas, ele pertence às águas.
O meu amigo, tal qual César, enfim retoma posse de suas moedas de ouro - o seu Amor também. O que fazer quando demandas murcham à margem da vida e a paixão escorre pelo corpo do tempo?
Na parede do quarto o espelho reflete o inverso do reverso, só mostra o que precisa ser visto; o meu amigo não quer ver e o espelho respeita a decisão, respeita Dorian Gray, mas não o poupa da furiosa foice do Tempo. 
Eu tenho esse amigo que não sabe lidar muito bem com as coisas, que atrapalha A com Z, que é excessivo, que sofre calado, que chora quando ninguém vê, que tem um coração belíssimo cheio das melhores intenções, mas que não sabe lidar com o vazio que sempre vem. Eu tenho esse amigo que é tão eu que às vezes até dói.
No final, no fim do dia, bem lá no último ponto de luz, na resistência do crepúsculo, isso tudo não faz diferença eu sei que na verdade o que me dói é o fato do meu amigo ser muito eu, e vice-versa; porém enquanto eu escolho o espelho ele escolhe o vazio; é essa solidão a dois, das nossas decisões divergentes que me dói, e é ela quem espreme essas palavras de mim. 
Aguardo receoso pelo dia em que eu e meu amigo trocarmos de lugares diante do espelho, opostos tão parecidos, tão próximos. Talvez por isso me fascine a ideia do crepúsculo: Lua e Sol, os equivalentes opostos, se encontram, mesmo que brevemente, na dança dos céus. Me fascinam os olhos do meu amigo porque é neles que nós nos encontramos na dança do tempo, na eterna dança do espelho.

1 de agosto de 2016

Diálogos - Gabriel


- Ele sumiu. Pedro, ele sumiu, nunca mais vi, nunca mais ouvi falar, ele sumiu. 
Nós dois estávamos falando de Jonas, namorado de Gabriel; Jonas, nosso amigo em comum, aquele baixinho que sempre tinha algo a dizer, esse Jonas. Bem, ele sumiu, querendo ou não precisávamos falar disso.
Gabriel está desolado, seus olhos abrigam um vazio que eu nunca tinha visto, sua voz se parte a cada frase em que ressoa, suas mãos abraçam uma a outra num aperto ansioso e trêmulo, então isto é um homem partido? 
- Pra onde será que ele foi? Cê recebeu alguma notícia? Será que ele arranjou alguém novo? Eu o amo, cê sabe disso, né? Eu o amo, Pedro.
- Eu sei Gabi, mas eu não posso fazer nada, eu não sei de nada.
- Mas vocês eram tão ligados, como não sabe?
- Não sabendo.
- Foi tão súbito.
- Não acho.
- Então você está sabendo de alguma coisa que eu não sei.
- Eu acho que a questão aqui tá mais pra: eu penso algo que você não imagina.
- E o que é então?
- Eu não acho que nada seja verdadeiramente súbito, sabe? Nós somos tão complexos, tão profundos, difícil pensar que algo em nós "surja" do dia pra noite
- Nossa, mas você é ridículo mesmo, né? Debochando de mim com suas teorias psicológicas até num momento destes.
- Mas não tô debochando.
- Não ligo, eu só quero saber do Hélio.
- De quem?
- Do Jonas.
- Cê falou Hélio?
- O quê?
- Sim, Hélio. Quem é Hélio?
- Um menino aí...
- Nossa, pra quem tava tremendo cê já superou bem rápido, né? 
- Não é nada disso!
- Então é o que?
- Eu não sei.
- Como assim não sabe?
- Cê sabe que eu e o Jonas estamos namorando...Ou pelo menos estávamos, né? Não sei...
- Sei sim.
- Então...É complicado.
- O que nessa vida não é?
Gabriel engole seco. Olha para a janela do quarto e fita a caixa d'água do shopping que acolhia o pôr do sol daquela tarde de terça-feira. A água comumente recebe o Sol exausto, assim como eu e Gabriel desenvolvemos o hábito de receber um ao outro em nossa exaustão. Ter para quem voltar no fim do dia é o verdadeiro milagre.
- Pedro, eu não te contei de uma coisa. - Ele me fala depois de um longo suspiro, com pesar em sua voz.
- Eu conheci o Hélio numa festa da faculdade.
- Cês ficaram?
- Não.
- Conversaram?
- Também não.
- Então o que há entre vocês?
- Ele estava lá, dançando tão bem, sabe? Sendo esse cara super legal, bem vestido, inteligente e politizado. Eu não conseguia para de pensar nele. Ainda tenho pensando bastante.
- E onde é que o Jonas entra nessa história?
- Ah, eu contei pra ele que estava apaixonado pelo Hélio.
- O QUÊ? COMO VOCÊ PÔDE CAGAR O SEU RELACIONAMENTO POR UM CRUSH QUE VOCÊ NEM PEGOU.
- Eu caguei as coisas entre eu e o Jonas?
- Como ele reagiu quando você falou?
- Ele fez uma cara bem bizarra, sabe aquela entre orgasmo e terror?
- Sei sim hahahahaha.
- Então ele fez isso e depois ficou calado por uns dias. Achei que ia passar, não passou.
- Cê se apaixonou por uma ideia.
- Como assim?
- Pela ideia do Hélio. A sua percepção, esse platonismo todo, você ama uma ideia.
- Não, eu amo o Hélio, do jeitinho que ele é, do jeitinho que me encanta, sabe?
- E quem é o Hélio? Qual é o jeitinho dele?
- Eu acabei de falar pra você!
- Não, você me falou só o que você vê nele.
- Qual a diferença?
- A diferença é que você ama um estranho e em prol desse romance-ideia enxota o Jonas do seu coração.
- Não é verdade...
- Nós dois sabemos que é. O silêncio é um lugar incômodo para se estar, mas isso é bom: todo silêncio nos leva a um lugar novo.
- Para onde eu estou indo, Pedro?
- Eu não sei, amigo. Mas você sabe que as coisas vão mudar, né? Na verdade já mudaram.
- Pior que sei...
Eu e Gabriel nos abraçamos, paramos de falar sobre o que quer que brotasse em nossas mentes, naquele momento estar ali era o bastante; tinha que ser, e foi.
Só falei com o Jonas uma última vez depois daquela conversa, ele se queixou de como eu sempre defendi o Gabriel e que estava cansado de me procurar - "Eu gosto de gente que toma partido e agarra o outro com força" é algo que ele costumava dizer. Eu não vivo em cima do muro, nunca vivi; acho que a grande questão é que dói admitir que as pessoas que amamos já estão do outro lado sem nós. Deve doer, não me lembro bem da última vez que passei por isso, mas sei que deve doer. Dói.

27 de junho de 2016

Não Sei Endereçar Amor

Fiz uma lista das cartas de amor ininteligíveis a qualquer um senão eu; algumas delas jamais foram entregues, outras sequer foram esboçadas, mas todas são, consciente ou inconscientemente, esforços para tentar entregar ao outro o melhor de mim. 
Todos os poemas que já escrevi são cartas de amor. Cartas abertas e impessoais de amor. Alguns, entretanto, evocam locais e momentos únicos, sabotando todo o meu desapego e licença poética. Eu não gosto de endereçar o meu afeto a alguém porque quando escrevo o que mais busco é a empatia do leitor. Você, que me lê e não me conhece é quem deve saber como eu me sinto. Os meus escritos pertencem aos desconhecidos.
Todos os meus escritos, endereçados, são impublicáveis. Não pelo conteúdo, mas pela carga emocional  - os que recebo, pelo menos, se tornam impublicáveis para mim; em parte porque sou egoísta e me recuso a compartilhar uma gota de afeto sequer, e noutra porque absorvo o amor mais facilmente através das palavras. Sou extremamente verbal, não me importo em nomear os sentimentos, mas é de extrema importância percebê-los e descrevê-los. 
Manter cartas e escritos são as formas que encontro de estruturar o meu afeto e buscar algum sentido naquilo que essencialmente tem quase nenhum. Tudo o que escrevi e recebi está guardado em algum lugar - tenho carinho com o tempo que me é dedicado e principalmente com as pessoas que se dedicam.
Ainda assim não sei endereçar, e não sei se me sentiria bem endereçando publicamente o meu afeto através de um poema ou texto. Não me importo se você quiser fazer de minhas palavras públicas, só não espere que eu as apresente ao mundo. Eu lhe entrego o amor, ainda que decomposto em meus longos parágrafos, e cabe a você atribuir-lhe uso. O amor que sinto por você e os frutos dele pertencem a você, e não a mim. Não escrevo para encher os olhos dos teus amigos ou fascinar os teus ex-namorados, eu escrevo porque fico feliz em saber minhas palavras lhe agradam, e principalmente: porque é importante para mim que você saiba como me sinto.
"Trocaremos estas pequenas cartas até julho chegar."

18 de junho de 2016

Verão I


Palmeiras sinfônicas
farfalham suaves
por uma brisa solitária.
Horizonte-areial -
mar tão distante
quanto o teu afeto.

Aguaceiro do mês
passado escorreu
pelos olhos
da praia;
levando tudo,
lavando a todos.

Sol à míngua
do medo,
confrontando
o terror
dos próprios
raios
na alvura
da praia.

Mudez maremotriz.
faíscas de eletricidade
das palavras
jamais ditas.
O silêncio queima
a pele do presente.

A língua é o
chicote do ar;
a brisa só vai
em direção
ao estar-só,
estar-sol.


Boiando em
memória,
terror a
pino.
Tomo
as mãos
em concha,

me
vem
você.

Aguaceiro do mês
passado só não
conseguiu
te levar
de mim.

13 de junho de 2016

Primeiro Estilhaço


Manga estilhaçando janela do quarto em dia de chuva. Arritmia às três da manhã, insone por quatro dias seguidos - sintomático. Manga tão amassada quanto o rosto debruçado sobre o travesseiro; os olhos buscam e repelem o celular sem novas mensagens num infindável ciclo ambivalente - no centro da ansiedade havia você.
As árvores farfalham ritmicamente,  enquanto a chuva esquadrinha a alma minuciosamente à procura d'algum lugar que não queime em paixão febril. Busca malsucedida. Os minutos despencam no peito e a respiração pesa; pr'onde você foi?
Vidro por todo o chão. A manga permanece no lugar em que caiu; ele ainda nem se deu conta do acontecido - está perdido demais em si para perceber o ambiente à sua volta. Sabe que ele vai ligar, afinal ele se sente da mesma forma, não é? Ou será que não? Esfriou aqui ou fui só eu?
Janela aberta, vento frio, noite longa. Suspiro seguido de silêncio absoluto: nenhum farfalhar, nenhum pensamento, nenhum tilintar de vidro arrebentado sendo arrastado pelo vento - apenas a solidão residual. Telefone ainda sem novas mensagens. 


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