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19 de fevereiro de 2018

Tarde de Maio - Carlos Drummond de Andrade



Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de
seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não-perceptível, e tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh'alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza sem fruto.

Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto, e passa...
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.

Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.

E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.

Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita sem máscaras?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.



arte::: não consegui achar a fonte (weheartit).

29 de fevereiro de 2016

Necrológio dos Desiludidos do Amor - Drummond


Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh quanta matéria para os jornais.
Desiludidos mas fotografados,
escreveram cartas explicativas,
tomaram todas as providências
para o remorso das amadas.
Pum pum pum adeus, enjoada.
Eu vou, tu ficas, mas nos veremos
seja no claro céu ou turvo inferno.
Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Vísceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia.
Agora vamos para o cemitério
levar os corpos dos desiludidos
encaixotados competentemente
(paixões de primeira e segunda classe).
Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.
Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba deles. 


Carlos Drummond de Andrade

26 de dezembro de 2015

A Insustentável Leveza do Ser

Rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa é um espinho.
As coisas nem sempre são o que parecem ser, ou o que devem ser. Será que eu ainda sou quem me ensinaram a ser? Ou teria esquecido da minha essência?
Qual é a minha essência? Espalhada pela cidade, no fundo da alma, é poliglota, vive tanto nas outras pessoas quanto em mim mesmo; vive em quem eu amo – é barulhenta, assertiva, mas ainda assim intranscritível.
Algumas coisas duram um longo tempo. Outras coisas duram longas noites. Outras coisas duram vidas inteiras. Nem todas as vidas são longas, nem todas as noites são curtas.
Não há tempo para racionalizações – a essência precisa ser espalhada; se havia uma alma foi vendida por palavras bonitas e se havia um corpo este foi compelido a disseminar a instranscritível essência.
O corpo e o copo em uníssono clamam pela alma para que ignore as faculdades dos sentidos e revele os seus ângulos mais bestiais. Por dentro nem tudo é luz – quem poderia viver completamente cônscio de si mesmo e não acordar completamente aterrorizado ao amanhecer?
Despejar verdades. As minhas verdades, os teus incômodos, sobre esta mesa. Tudo parece tão inocente, todos parecem anjos – mas sabemos do que se trata, não é mesmo? Algumas situações contornamos, já outras colidimos.
Um brinde aos tratores humanos. Àqueles que não contornam as situações em que são envolvidos. Há coragem nos dias destas pessoas e também um tipo incomum de inocência.
A essência é uma pedra no meio do caminho.



No Meio do Caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Drummond



No meio do caminho – eu mesmo. Exausto de minhas certezas e um tanto quanto alheio de minha existência, eu sigo a cada dia carregando o fardo dos reencontros. No meio do caminho havia eu mesmo, e ao mesmo tempo um completo estranho. No meio do caminho havia uma rosa, um espinho, uma pedra e a minha própria alma.

1 de fevereiro de 2015

Poema Que Aconteceu


Poema Que Aconteceu


Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

 
A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse. 


Carlos Drummond de Andrade 


PS: Dá pra ver o quanto um escritor é relevante pelo interesse das pessoas em seu trabalho, por menor que seja, Drummond com um curto poema ainda encanta, passo este domingo revirando poemas e memórias (muitos estão ligados ou são as mesmas coisas) e tentando parar de pensar nos poemas que poderiam ter acontecido, o fardo das possibilidades...

10 de dezembro de 2014

Crônicas: Uma breve explicação sobre o meu estilo

Esta postagem é apenas para avisar que começarei a postar algumas crônicas que tenho escrito. Minha paixão por escrever se deu através de poemas e crônicas, não sei se já falei aqui no blog, mas o meu poeta favorito é Drummond. Eu simplesmente idolatro quase todos os seus poemas, e pessoas como ele que me fizeram ter vontade de criar textos tão bonitos quando aqueles que lia, relia e me apaixonava.
Sobre minhas histórias e personagens, gosto de avisar o seguinte: sou apaixonado por anti-heróis, personagens atormentados, temáticas não-convencionais, sarcasmo e aqueles casos psicológicos bem clichê em que você acaba descobrindo que o assassino era a velhinha solitária do outro lado da rua.
Certa vez mostrei uma crônica sobre uma prostituta e um jornalista decadente (que por sinal foi a primeira que escrevi) a uma professora de literatura, ela leu, olhou para mim e sorriu falando "está muito bom", mas eu sentia que era um sorriso desconfortável não pela qualidade do texto, mas pelo peso das palavras, pela atmosfera criada na história que desloca os leitores desacostumados a este tipo de material, afinal eu tendo aos exageros, transito entre finais utópicos que variam de extremamente otimistas a pessimistas.
Desde de então não me esforcei para alcançar equilíbrio entre os comportamentos, muito pelo contrário, continuei escrevendo espontaneamente, me baseava em amigos, pessoas que não gostava, pessoas que me causaram dor, pessoas que amava e muitas vezes misturava um pouco de todas elas em uma só personagem, por isso falo do meu gosto por anti-heróis, eu não crio personagens para serem amados ou odiados pelos leitores, para mim os personagens se comportam da mesma forma que nós, não são 100% bons ou maus, não têm destinos previsíveis, mas obviamente alguns terão comportamentos mais agressivos ou inescrupulosos do que outros.
As crônicas postadas aqui no blog serão baseadas em temas que me interesso muito, tentarei discutir através destas curtas histórias, temáticas importantíssimas que acabam sendo irrelevantes no dia-a-dia de muitos. Não vou falar os temas que tenho pensado porque quero que sejam uma surpresa (espero que agradável).
Não sei ao certo quando começarei a postar, mas não deve demorar muito.
Encerro este post com o meu poema favorito de Drummond.


Apelo a meus Dessemelhantes em Favor da Paz

"Ah, não me tragam originais
para ler, para corrigir, para louvar
sobretudo, para louvar.
Não sou leitor do mundo nem espelho
de figuras que amam refletir-se
no outro à falta de retrato interior.
Sou o Velho Cansado
que adora o seu cansaço e não o quer
submisso ao vão comércio da palavra.
Poupem-me, por favor ou por desprezo,
se não querem poupar-me por amor.
Não leio mais, não posso, que este tempo
a mim distribuído
cai do ramo e azuleja o chão varrido,
chão tão limpo de ambição
que minha só leitura é ler o chão.
Nem sequer li os textos das pirâmides
os textos dos sarcófagos,
estou atrasadíssimo nos gregos,
não conheço os Anais de Assurbanipal,
como é que vou -
mancebos,
senhoritas,
-chegar à poesia de vanguarda
e às glórias do 2.000, que telefonam?
Passam gênios talvez entre as acácias,
sinto estátuas futuras se moldando
sem precisão de mim
que quando jovem (fui-o a.C., believe or not)

nunca pulei muro de jardim

para exigir do morador tranqüilo
a canonização do meu estilo.
Sirvam-se de exonerar este macróbio
do penoso exercício literário.
Não exijam prefácios e posfácios
ao ancião que mais fala quando cala.
Brotos de coxa flava e verso manco,
poetas de barba-colar e velutínea
calça puída, verde: tá!
Outoniços, crepusculinos, matronas, contumazes:
tá!
O senhor saiu. Hora que volta? Nunca.
Nunca de corvo, nunca de São-Nunca.
Saiu pra não voltar.
Tudo esqueceu: responder
cartas; sorrir
cumplicemente; agradecer
dedicatórias; retribuir
boas-festas; ir ao coquetel e à noite
de autógrafos-com-pastorinhas.
Ficou assim: o cacto de Manuel
é uma suavidade perto dele.
Respeitem a fera. Triste, sem presas, é fera.
Na jaula do mundo passeia a pata aplastante,
cuidado com ela!
Vocês, garotos de colégio, não perguntem ao poeta
quando ele nasceu.
Ele não nasceu.
Não vai nascer mais.
Desistiu de nascer quando viu que o esperavam garotos de colégio de lápis em punho
com professores na retaguarda comandando: Cacem o urso-polar,
tragam-no vivo para fazer uma conferência.
Repórteres de vespertinos, não tentem entrevistá-lo.
Não lhe, não me peçam opinião
que é impublicável qualquer que seja o fato do dia
e contraditória e louca antes de formulada.
Fotógrafos: não adianta
pedir pose junto ao oratório de Cocais
nem folheando o álbum de Portinari
nem tomando banho de chuveiro.
Sou contra Niepce, Daguerre, contra principalmente minha imagem.
Não quero oferecer minha cara como verônica nas revistas.
Quero a paz das estepes
a paz dos descampados
a paz do Pico de Itabira quando havia Pico de Itabira
a paz de cima das Agulhas Negras
a paz de muito abaixo da mina mais funda e esboroada
de Morro Velho
a paz
da
paz"
- Carlos Drummond de Andrade

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