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28 de março de 2018

Silêncio - Marianne Moore


Meu pai costumava dizer,
"Pessoas superiores nunca fazem visitas longas,
ninguém tem que lhes mostrar a cova de Longfellow
nem as flores de vidro de Harvard.
Independentes como o gato --
que leva sua presa à intimidade,
a cauda mole do rato pendurada como um cadarço para fora de sua boca --
às vezes elas apreciam a solidão,
e podem ter sua fala roubada
por outra que as encanta.
O sentimento mais profundo sempre se mostra no silêncio;
não em silêncio, mas restrito."
Também não era insincero dizendo "Faça de minha casa sua pousada."
Pousadas não são residências.


arte::: aqui.
tradução::: pedro luz.


19 de abril de 2017

Sobre o Incendiar



poesia é mato seco
queimando, cerrado
de ideias padecendo
de sentimento-ígneo.

nem tudo que se sente

é represado. por dentro
nem tudo é água. às 
vezes um incêndio é
compreendido, mas 
nunca justificado.

dependendo de quem, ou do

que queima, fogo trará 
revolta, ou louvor. vão abaixar
as cabeças para te ver passar,
por respeito a um homem que
está terminalmente doente de si
e não esconde a sua condição.

Incêndio assusta quando nasce

daqueles que nunca explodem,
daqueles que baixam a cabeça
e murcham como a rosa desenraizada;
na solidão de sua secura, de sua
fragilidade, fazem luzir do peito
fogo doentio, fogo que nasce na
amplidão do silêncio, que queima
e seca tudo por dentro.

poesia é sobre não 

morrer em si.


Ilustração por: Andri

4 de setembro de 2016

Descartes: Elegia Para Sabrina Balaclava




Triste por te ver partir tão cedo. Triste por não te ver. As manhãs tem sido acinzentadas; já faz algumas semanas que o rosa da alvorada fugiu dos meus dias. O tempo passa rapidamente, olho para o relógio e me espanto: me pego encarando para o mesmo vazio habitual, aquele que você deixou do lado esquerdo do guarda-roupas, vazio entalhado em mogno. Ainda outro dia te vi, entre lágrimas, flutuando sobre as gramíneas do retorno.
Triste por estar só. Joana vem todos os dias rezar o terço uma ou duas vezes ao meu lado, silenciosa. Diz que reza por você, mas sei que se preocupa, em grande parte, comigo; acho que eles têm medo de que eu tente me juntar a você. A vida é um entrelaçado dessas distâncias que mal cabem em mim. De repente tudo é um nó na garganta e você é apenas um fantasma silencioso na mastigação dos dias pelo tempo.
Eu não falo. A escrita, para mim, é covardia táctil. Sou eu quem não dá a cara a tapa e contorce os dedos em desconforto para transmitir o mal-estar. Covardia cúbica, por metro quadrado: a cada passo em meu apartamento uma desistência. Do caminhar de nosso quarto até o banheiro sinto ânsia de vômito – à memória socando nosso estômago damos o nome de remorso. À memória apaixonada pelo que poderia ter sido também chamamos remorso. Eu sou só remorso e pressão baixa, nada mais
A porta do seu lado do guarda-roupas está sempre aberta. O que é uma porta aberta para você? Faz algum sentido? Acho que este é um dos jeitos que encontrei para fazer crível a sua partida. Só eu aqui, sentado, sob o silêncio, sob o pesar da sua ausência.



Esse novo segmento, "Descartes", é feito a partir de todos os meus textos que eu não ache que funcionem bem juntos. Esse, por exemplo, é de um pequeno apanhado que seria sobre vida e obra de Sabrina B., só que havia elegia antes mesmo de haver Sabrina, não rendeu muito.

1 de agosto de 2016

Diálogos - Gabriel


- Ele sumiu. Pedro, ele sumiu, nunca mais vi, nunca mais ouvi falar, ele sumiu. 
Nós dois estávamos falando de Jonas, namorado de Gabriel; Jonas, nosso amigo em comum, aquele baixinho que sempre tinha algo a dizer, esse Jonas. Bem, ele sumiu, querendo ou não precisávamos falar disso.
Gabriel está desolado, seus olhos abrigam um vazio que eu nunca tinha visto, sua voz se parte a cada frase em que ressoa, suas mãos abraçam uma a outra num aperto ansioso e trêmulo, então isto é um homem partido? 
- Pra onde será que ele foi? Cê recebeu alguma notícia? Será que ele arranjou alguém novo? Eu o amo, cê sabe disso, né? Eu o amo, Pedro.
- Eu sei Gabi, mas eu não posso fazer nada, eu não sei de nada.
- Mas vocês eram tão ligados, como não sabe?
- Não sabendo.
- Foi tão súbito.
- Não acho.
- Então você está sabendo de alguma coisa que eu não sei.
- Eu acho que a questão aqui tá mais pra: eu penso algo que você não imagina.
- E o que é então?
- Eu não acho que nada seja verdadeiramente súbito, sabe? Nós somos tão complexos, tão profundos, difícil pensar que algo em nós "surja" do dia pra noite
- Nossa, mas você é ridículo mesmo, né? Debochando de mim com suas teorias psicológicas até num momento destes.
- Mas não tô debochando.
- Não ligo, eu só quero saber do Hélio.
- De quem?
- Do Jonas.
- Cê falou Hélio?
- O quê?
- Sim, Hélio. Quem é Hélio?
- Um menino aí...
- Nossa, pra quem tava tremendo cê já superou bem rápido, né? 
- Não é nada disso!
- Então é o que?
- Eu não sei.
- Como assim não sabe?
- Cê sabe que eu e o Jonas estamos namorando...Ou pelo menos estávamos, né? Não sei...
- Sei sim.
- Então...É complicado.
- O que nessa vida não é?
Gabriel engole seco. Olha para a janela do quarto e fita a caixa d'água do shopping que acolhia o pôr do sol daquela tarde de terça-feira. A água comumente recebe o Sol exausto, assim como eu e Gabriel desenvolvemos o hábito de receber um ao outro em nossa exaustão. Ter para quem voltar no fim do dia é o verdadeiro milagre.
- Pedro, eu não te contei de uma coisa. - Ele me fala depois de um longo suspiro, com pesar em sua voz.
- Eu conheci o Hélio numa festa da faculdade.
- Cês ficaram?
- Não.
- Conversaram?
- Também não.
- Então o que há entre vocês?
- Ele estava lá, dançando tão bem, sabe? Sendo esse cara super legal, bem vestido, inteligente e politizado. Eu não conseguia para de pensar nele. Ainda tenho pensando bastante.
- E onde é que o Jonas entra nessa história?
- Ah, eu contei pra ele que estava apaixonado pelo Hélio.
- O QUÊ? COMO VOCÊ PÔDE CAGAR O SEU RELACIONAMENTO POR UM CRUSH QUE VOCÊ NEM PEGOU.
- Eu caguei as coisas entre eu e o Jonas?
- Como ele reagiu quando você falou?
- Ele fez uma cara bem bizarra, sabe aquela entre orgasmo e terror?
- Sei sim hahahahaha.
- Então ele fez isso e depois ficou calado por uns dias. Achei que ia passar, não passou.
- Cê se apaixonou por uma ideia.
- Como assim?
- Pela ideia do Hélio. A sua percepção, esse platonismo todo, você ama uma ideia.
- Não, eu amo o Hélio, do jeitinho que ele é, do jeitinho que me encanta, sabe?
- E quem é o Hélio? Qual é o jeitinho dele?
- Eu acabei de falar pra você!
- Não, você me falou só o que você vê nele.
- Qual a diferença?
- A diferença é que você ama um estranho e em prol desse romance-ideia enxota o Jonas do seu coração.
- Não é verdade...
- Nós dois sabemos que é. O silêncio é um lugar incômodo para se estar, mas isso é bom: todo silêncio nos leva a um lugar novo.
- Para onde eu estou indo, Pedro?
- Eu não sei, amigo. Mas você sabe que as coisas vão mudar, né? Na verdade já mudaram.
- Pior que sei...
Eu e Gabriel nos abraçamos, paramos de falar sobre o que quer que brotasse em nossas mentes, naquele momento estar ali era o bastante; tinha que ser, e foi.
Só falei com o Jonas uma última vez depois daquela conversa, ele se queixou de como eu sempre defendi o Gabriel e que estava cansado de me procurar - "Eu gosto de gente que toma partido e agarra o outro com força" é algo que ele costumava dizer. Eu não vivo em cima do muro, nunca vivi; acho que a grande questão é que dói admitir que as pessoas que amamos já estão do outro lado sem nós. Deve doer, não me lembro bem da última vez que passei por isso, mas sei que deve doer. Dói.

6 de julho de 2016

Você Ainda Acredita em Poetas?

A poesia é a última das armaduras literárias. Com poucas palavras concebe-se o infinito, e a vastidão não é vulnerável - o autor se refugia na polivalência de seus versos para evitar o compromisso com aquilo de mais profundo em si, aquilo que é, consciente ou inconscientemente, rejeitado.
Há, entretanto, sensibilidade poética. O autor busca pela validação literária das emoções; a poesia raramente encontra júbilo na racionalidade - no fim das contas escreve-se de verdade com as tripas.
Fazer do vazio no peito algo palpável é o milagre alcançado na poesia. Ainda assim, o poeta mente; talvez porque ache em suas personas um alento à sua verdadeira identidade. Permanecer subjetivo e volúvel enquanto outros optam por clareza e objetividade é uma espécie de desobediência moral (ou pelo menos um culto ao orgulho perdido das não decisões). A rebeldia é o escárnio da norma, e o escárnio dos poetas autênticos - revolucionário é quem bate no peito para dizer que mente.
A mentira precede a moral, é importante que nos lembremos disso. Menino não chora e muito menos escreve sobre sentimentos. A escrita é o delírio de todos aqueles que não puderam ser, de todos aqueles que foram marginalizados, embebidos em medo. A escrita é a última vingança terrena para aqueles que tiveram suas vozes tomadas ainda cedo. 
Por isso engana-se quem chama qualquer poeta de autêntico, porque escrever também envolve aquilo que nunca é dito. O que não se diz é uma mentira para todos os que desconhecem - neste momento o poeta percebe-se como solitário; saber de coisas sobre nós mesmos que ninguém mais sabe é estar só.
Acaso é como chamamos todas as mentiras acobertadas pelo silêncio.
Ainda ontem escrevi uma carta com sete lágrimas e dois soluços de desamparo para o endereço de sempre. O poeta é o sacerdote do silêncio, e, consequentemente, sua vítima.
Escrever é resistir aos antagonismos da vida e, com sorte, não ser marcado pelo silêncio. Mentir, pelo menos no âmbito poético, é proteger a solidão residual, a solidão identitária.

1 de julho de 2016

Efemérides - 01/07/16


ontem mesmo
amor da minha
vida
sentou
e chorou
como
criança,

disse que a dor
veio de repente
de maré.
agora estou 
chorando junto,
incansavelmente,
por não poder
fazer nada
além disso.

choro por 
só me restar
o choro.

chorar
é expurgar
a mudez
dum coração
aflito.

impotência
assolando o 
coração das
pessoas.
voltar para 
casa é um
milagre,

acreditar em
quem você
chama de lar
é ter fé
no milagre.

dissolver 
as vontades
egóicas 
no rio de 
lágrimas,

aquilo que
me alimenta
nem sempre
me faz crescer.

é tempo
de crescer;
o sol só 
nasce para 
nutrir a 
quem precisa;

a ajuda só 
vem para 
quem conse-
gue romper 
com o silêncio,

"o seu silêncio
não lhe
protegerá."

a vida segue
 em sinuosa
imperfeição.

4 de maio de 2016

Efemérides - 04/05/2016


O corpo díspar pinga sobre a realidade embebido em incertezas; uma gota desanimada escorre pela janela da existência, vagarosa, como quem busca validação mas não sabe pedir; é isso que é uma lágrima? Por quem você chora além de si mesmo?
O tempo é um detalhe. Deixemos os relógios e ponteiros para existencialistas baratos, nós somos punks místicos imersos em poesia e aliterações.
O maquinário do mundo é uma armadilha para sonhos, uma boca de lobo cósmica que dilacera devaneios e os leva às estrelas. O misticismo precede o sonho; existir e resistir são atos de fé.
Pulmões em brasa, respiração ofegante, testa molhada. O dia pede o silêncio, mas eu quero vomitar um incêndio na sua sacada. 
O corpo incerto dispara contra o sol. É forte, mas é por acaso. Uma metralhadora cheia de mágoas nascidas do silêncio superficial. O dia pede silêncio para fazer da voz revolucionária. O vento concede impulso a quem ousa calar-se para fazer algum barulho. Só se pega em armas quando o afeto deixa de ser revolucionário; a palavra é uma arma, e de destruição em massa.
Os mal-entendidos amargam juntamente às intenções despedaçadas. As coisas nunca mais serão as mesmas, não se agarre ao impossível. O dia deixa um recado claro, no fim da festa, no fim da guerra, o Sol poente no degradê do entardecer avisa: "Tentar ressuscitar cadáveres da memória não te levará a lugar nenhum. Daqui em diante só segue em frente quem pensa no amanhã".
Faltam palavras, e principalmente: falta fôlego. Respire, descanse, reflita.




"Efemérides" é uma nova série que eu pretendo alimentar. Algumas palavras pruns dias que não podem passar sob o véu do silêncio.
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