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16 de julho de 2016

Efemérides 16/07/16


procurando nas cinzas
o que ainda existe
mas padece da
ausência de si.

peitos vazios,
posteriormente habitados
por suspiros contemplativos -
à beira de mim sentei e chorei.

não sobrou nem memórias
nem nostalgia ou o que quer
que seja;
a labareda da certeza me
queimou a alma.

lambendo as feridas e
lágrimas no domicílio noturno -
a vida é muito longa
para choramingos,
para estar à míngua.

Sair da toca é resistir -
à praia passageira,
ao mangue que desiste de si.
Mesmo em meio
à imundice o caranguejo
resiste e prospera.

O dia aprende
e ensina a crescer.
Doloroso fulgor
das horas montando
em nossas costas.

13 de junho de 2016

Primeiro Estilhaço


Manga estilhaçando janela do quarto em dia de chuva. Arritmia às três da manhã, insone por quatro dias seguidos - sintomático. Manga tão amassada quanto o rosto debruçado sobre o travesseiro; os olhos buscam e repelem o celular sem novas mensagens num infindável ciclo ambivalente - no centro da ansiedade havia você.
As árvores farfalham ritmicamente,  enquanto a chuva esquadrinha a alma minuciosamente à procura d'algum lugar que não queime em paixão febril. Busca malsucedida. Os minutos despencam no peito e a respiração pesa; pr'onde você foi?
Vidro por todo o chão. A manga permanece no lugar em que caiu; ele ainda nem se deu conta do acontecido - está perdido demais em si para perceber o ambiente à sua volta. Sabe que ele vai ligar, afinal ele se sente da mesma forma, não é? Ou será que não? Esfriou aqui ou fui só eu?
Janela aberta, vento frio, noite longa. Suspiro seguido de silêncio absoluto: nenhum farfalhar, nenhum pensamento, nenhum tilintar de vidro arrebentado sendo arrastado pelo vento - apenas a solidão residual. Telefone ainda sem novas mensagens. 


17 de fevereiro de 2016

Ninguém Está Resolvendo Nada

Ontem eu estava muito triste; hoje permaneço triste, mas seguindo um conselho que me foi dado ontem à noite, estou  tentando me ocupar. Não funcionou muito bem, agora estou triste e cansado; mas eu definitivamente consigo ver a lógica neste conselho, é muito mais fácil ignorar um sentimento, entregar-se à vida prática e deixar todas as nossas questões emotivas pendentes, do que lidar com ele.
Eu, enquanto grande apreciador da lógica, me questiono por que este método não me satisfaz - penso, repenso, acredito ter chegado a uma conclusão: talvez me incomode a ideia de que ninguém se preocupa em solucionar seus problemas, apenas em silenciá-los. Eu quero falar sobre as coisas que me incomodam e que me angustiam.
Veja bem, eu venho de uma geração diagnosticada, medicada, analisada, que passou pelas mãos de milhares de psicólogos, sociólogos, psiquiatras,  antropólogos, para no fim ser chamada de solitária, fingir não se importar e sair pra fazer "esquenta" com cerveja comprada em mercado numa esquina qualquer e perder-se baladas afora.
Ninguém está afim de ser taxado de problemático, ninguém está disposto a tentar fazer as coisas do seu próprio jeito - individualidade é algo raríssimo nos dias de hoje, onde nada parece ser criado, apenas entregue.
Relacionamentos abertíssimos, formando ângulos de 360º circunscritos na solidão. Muitos se incomodam, mas ninguém quer parecer careta, ninguém quer se sentir deslocado do seu próprio ninho, mas qual o sentido de ter um ninho que não tem nada a ver com você?
Todo mundo está disposto a tudo o tempo todo para não parecer antiquado. No fim todos nós somos muito solitários, sabe? Tem gente ao nosso redor, mas é tudo bem solitário. Não tem nada de errado em seguir o coração - e isso é uma coisa que eu conclui há pouquíssimos dias - seguir o coração que se humilha, que não faz sentido, e que insiste em persistir no que não existe. Seguir o coração é o melhor que pode ser feito em tempo de crise - e no Brasil tempos de crise tem sido todos os dias, não é?
Precisamos aceitar, dentro de nós existe um vazio. O que satisfaz a alma é tão particular quanto a própria alma; nós nos acostumamos a ouvir pessoas nos dizendo como todas as coisas devem ser solucionadas que esquecemos de nos perguntar "Como eu acho que isto deve ser resolvido?". Talvez você não ache uma solução, é provável que não ache, mas tentar chegar a alguma conclusão é fundamental.
Ninguém precisa seguir modelos para se sentir bem. Nós somos produto de nossas experiências; negar a experimentação e formação do senso crítico e negar a quem verdadeiramente somos.
Experimente, crie opiniões sobre as coisas, se disponha a conversar sobre o que acontece em sua vida, nem que esta conversa se limite a você mesmo. Às vezes é importante que resolvamos uma parte da grande bagunça que somos, pelo menos a entrada da casa que chamamos de Alma para que o outro possa adentrar. Precisamos nos resolver com nós mesmos, ignorar um pouco as demandas do outro num primeiro momento para que posteriormente possamos atendê-las com toda a atenção que merecem.
Por favor, pare de sufocar sentimentos, as emoções são os sinalizadores de tudo o que se perde dentro de nós - é preciso olhar bem para céu iluminado pelos sentimentos, respirar fundo e ter a coragem de fazer o que é preciso. Na pior das hipóteses feche os olhos e respire - se dispor a resolver é um sinal de que eventualmente as coisas se resolverão.


26 de dezembro de 2015

A Insustentável Leveza do Ser

Rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa é um espinho.
As coisas nem sempre são o que parecem ser, ou o que devem ser. Será que eu ainda sou quem me ensinaram a ser? Ou teria esquecido da minha essência?
Qual é a minha essência? Espalhada pela cidade, no fundo da alma, é poliglota, vive tanto nas outras pessoas quanto em mim mesmo; vive em quem eu amo – é barulhenta, assertiva, mas ainda assim intranscritível.
Algumas coisas duram um longo tempo. Outras coisas duram longas noites. Outras coisas duram vidas inteiras. Nem todas as vidas são longas, nem todas as noites são curtas.
Não há tempo para racionalizações – a essência precisa ser espalhada; se havia uma alma foi vendida por palavras bonitas e se havia um corpo este foi compelido a disseminar a instranscritível essência.
O corpo e o copo em uníssono clamam pela alma para que ignore as faculdades dos sentidos e revele os seus ângulos mais bestiais. Por dentro nem tudo é luz – quem poderia viver completamente cônscio de si mesmo e não acordar completamente aterrorizado ao amanhecer?
Despejar verdades. As minhas verdades, os teus incômodos, sobre esta mesa. Tudo parece tão inocente, todos parecem anjos – mas sabemos do que se trata, não é mesmo? Algumas situações contornamos, já outras colidimos.
Um brinde aos tratores humanos. Àqueles que não contornam as situações em que são envolvidos. Há coragem nos dias destas pessoas e também um tipo incomum de inocência.
A essência é uma pedra no meio do caminho.



No Meio do Caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Drummond



No meio do caminho – eu mesmo. Exausto de minhas certezas e um tanto quanto alheio de minha existência, eu sigo a cada dia carregando o fardo dos reencontros. No meio do caminho havia eu mesmo, e ao mesmo tempo um completo estranho. No meio do caminho havia uma rosa, um espinho, uma pedra e a minha própria alma.

21 de dezembro de 2015

O Seu Lugar No Mundo

Qualquer lugar no mundo
É o seu lugar no mundo
Qualquer lugar onde as horas são vagarosas
Onde a conversa não é em prosa
E os olhares de poucos segundos parecem não bastar

Qualquer lugar onde possamos conversar calados por horas
Enquanto ainda é frio lá fora.
Dentro de mim, dentro de você, é suficientemente quente.
O seu lugar no mundo
É qualquer lugar onde o amor não seja impaciente.

Onde solilóquios são verdadeiramente interessantes
E o teu verdadeiro "eu" não seja mais um cavaleiro errante
Este é o teu lugar no mundo.
Onde a alma beija o espelho porque gosta do que vê.
E vê apenas o que gosta.

Onde goza de incontáveis regalias
E descansa sobre parreiras douradas;
Onde ri do humor invisível
E voa pelas autofágicas autoestradas;
Este é o seu lugar no mundo.

Onde carcaças de chumbo jamais prenderiam um espírito livre
Onde relacionamentos sérios sejam relativos
Onde os parceiros sejam tão altivos quanto o teu espírito
Onde a sobrenatural e extra brilhante beleza da alma jamais seja contida
Este é o teu lugar no mundo

Onde você é verdadeiramente livre. 
E é verdadeiramente louco por pensar em ser livre.
E é feliz. Subitamente não pensa mais em liberdade - esta já tornou-se parte do ser.
O teu lugar no mundo - qualquer lugar no mundo onde você não consiga mais conter a si mesmo e não se sinta mal por isso.
O teu lugar no mundo é onde você aceita a beleza das tuas imperfeições.
Você é livre - este é o seu lugar no mundo.

11 de dezembro de 2015

Jardim Santo Inácio, Estado Espiritual

Jardim Santo Inácio, estado espiritual
Lotações de plástico estufadas com toneladas de sonhos exaustos às seis da tarde de uma segunda-feira
Tamancos do mesmo plástico sob o sol mais livre do que eu e você jamais pensaríamos em ser
Jardim Santo Inácio, onde meu futuro se emaranhou nas entranhas da desesperança.
Onde racionalizei a minha própria condição e a confrontei rodeado pela poeira sobrenatural duma noite de setembro.
Onde as minhas intenções eram incondicionalmente puras, apesar de que meu corpo não era;
Onde eu acreditava em amor verdadeiro e realmente me esforça para alcançá-lo.
Jardim Santo Inácio, o berço das minhas lamúrias.
Onde nós passávamos os dias caminhando em círculos ao redor de nossas próprias almas.
Onde o brilho sobrenatural e fantasmagórico da vida adulta nos cegava e nos fazia pedalar por rivieras de ilusão.
Jardim Santo Inácio, onde mentiram para mim;
Onde disseram que cacetetes e sprays jamais partiriam os espíritos daqueles que acreditavam em si mesmos - primeiro eles partiram o meu rosto, e depois o meu espírito.
Onde toneladas de trabalhadores marcharam indefinidamente para mover a cruel e inexorável roda da fortuna humana.
Onde um serafim enlameado beijou a minha testa, sussurrou em meu ouvido e chorou pela minha alma.
Jardim Santo Inácio, onde todos nós éramos anjos e acreditávamos em alguma coisa.
Onde o pão era feito da própria alma e a alma feita do próprio pão.
Onde as foices eram etéreas e os dias infinitos.
A infinidade da foice colapsando na garganta do tempo.
Mormaço e melancolia rompendo as estruturas e os pressupostos.
Jardim Santo Inácio, onde viver e ser visto era revolucionário e extremamente perigoso.
Jardim Santo Inácio, onde a minha cor era profundamente trágica apesar de ser belíssima.
Jardim Santo Inácio, onde todos nós éramos culpados até que se provasse o contrário.
Jardim Santo Inácio, onde apesar de tudo eu era verdadeiramente eu;
Jardim Santo Inácio, um estado espiritual. 


Nota: Essa foto não foi tirada no Jardim Santo Inácio, mas sinto uma força tão grande dela, desde que vi o ensaio na vice, me apaixonei! É uma das melhores que vi este ano, me causa algumas sensações que tento causar com o poema então resolvi usar; espero que gostem dela tanto quanto eu.

3 de dezembro de 2015

47m²


Sucumbe à penumbra do desejo.
Olhos pré-apocalípticos no corpo nu;
Beijos intermináveis no sofá da sala.
Cactos catatônicos na pequena janela da cozinha.
Gotas de carícias encharcam a sala por completo.
Amor invencível no calor do momento.
Ele beijou a minha alma como ninguém jamais fez.
Solitárias palavras avolumam-se no santo exílio.
Castelos cadentes anunciam finais infelizes.
Solidão genérica, genética – invencível.
Três da tarde – vomito orgulho e ressentimento na calçada no centro da cidade.
Eu lembro de seu rosto e me sinto tão mal por lembrar de pensar de você.
Carros monocromáticos param em frente ao sinal, o meu corpo caminha na faixa listrada de cortesias auto impostas; eu me perdi de minha alma no caminho de casa.
Espero o seu contato. Paciente herói de auto epopeias; minguo no meu ser e no meu sentir com a tua ausência.
Desta vez o que temos está morto. Hoje de manhã abri a mão e derrubei a metafórica terra sobre o alegórico corpo.
Novembro é mês de morto; dezembro também.
Com quantos dias de falecimento voltaremos da sagrada tumba?
O amor está morto, será que ele volta?
Lâmpadas queimadas sobre milhares de cabeças aflitas, ilusões mil
Solenidades & sobriedade & compostura.
A ultra superficialidade da alma humana e de suas projeções;
Saudosismo sob a vastidão estrelada, solidão em miríades de contemporâneos.
Eu sinto a sua falta.
Isso precisa ser claro, claríssimo – penso em você a maior parte do tempo, se decidi me ocupar tanto é para pensar com menos frequência, o pior é que nem adiantou.
Ontem eu agonizei tal qual Quíron – amor-flecha envenenada na coxa do centauro.
Hoje eu ascendi. Enxerguei a situação com os olhos de poeta e não de amante.
Me autoconsolei. Deitei-me em cobertas espirituais, beijei minha testa e disse algumas palavras de conforto – poucas eram verdade, mas se fossem não seriam palavras de conforto.
Sinto sua falta, preciso me repetir – do exílio de meu coração lhe escrevo milhares de cartas sentimentalíssimas ilegíveis aos olhos dos homens - podem ser lidas apenas por olhos de anjos, por isso lhe escrevo.
Você se foi, e eu sinto isso, por isso evoquei, das catacumbas de mim, os mais doces anjos para que cuidassem do corpo e fossem em busca da alma perdida.
Alma elétrica, carente. Alma Mirach; cândida filha de Andrômeda.
Hoje o dia e meus auto anjos me curam de você e de mim mesmo.
Hoje estamos mortos.
Amanhã eu não sei.

1 de agosto de 2015

O que Satisfaz a Alma é Verdade


A gente acorda cedo e pensa nas coisas. O sol demora para nascer, a coloração rósea do céu dá voz ao desejo e transborda tudo aquilo que nos esforçamos para ocultar ao longo do dia.
Eu desejo não desejar. Pela manhã estou sozinho, e é assim que gostaria de permanecer, mas não posso. Não posso porque me atraem os debates e os debatedores (principalmente os debatedores), as polêmicas, os sentimentos exaltados, tudo o que faz do exercício da humanidade complexo me atrai.
Talvez por isso eu me acostumei a sofrer. Para entender o outro é preciso que nos entendamos primeiro, como fazê-lo? Não sei, não há uma receita, nem mesmo sei se me entendo direito, vivo há pouco tempo para ser completo senhor de mim, mas acredito já dominar boa parte.
Eu grito para mim mesmo quem eu quero ser, não adianta, a minha surdez não impede a minha alma de colidir com as imposições do físico. A minha alma é um tanque de guerra, grandiosa e inexorável, por mais violentada e agredida que possa ser, permanece avançando. Movido por um espírito surpreendentemente resiliente eu avanço e raramente volto atrás.
O espírito é, mais do que nunca, verdadeiro no desejo de seguir em frente, de nunca ser parado. A locomotiva da alma raramente faz concessões. Para que censurá-la com os míseros limites do físico?
Às vezes é preciso sair para encontrar o que se tanto procura. Ficar só, não ter um destino fixo ou um ponto de retorno, em meio a este caos é comum encontrar a estabilidade, ainda que para o outro a sua definição de estabilidade seja o caos. Viajar é preciso, alimentar a alma, sair de nós; cortar raízes, flutuar para além do invólucro do preconceitos e construir um você a partir da vastidão explorada. 
 Precisamos mudar quando a alma sente fome, de gente nova, de lugares novos. Quando a alma quer engolir o mundo a gente muda, viaja, some ou reaparece.
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