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14 de outubro de 2017

Mensagem - Allen Ginsberg

Desde que nós mudamos 
fodemos usamos drogas trabalhamos 
lamuriamos e mijamos juntos
eu acordo pela manhã
com um sonho em meus olhos
mas você está longe em NY
lembrando-se bem de mim
eu te amo eu te amo
e os seus irmãos são loucos
eu aceito os casos deles de embriaguez
Faz muito tempo desde que estive sozinho
faz muito tempo desde que me sentei na cama
sem ninguém para encostar o joelho, homem ou mulher
eu não me importo mais, 
eu quero ser amado eu fui feito para isso eu quero você comigo agora
Navios de Carga cozinhando pelo Atlântico
Delicadas peças de metal de arranha-céus incompletos
Traseira do dirigível roncando sobre Lakehurst
Seis mulheres nuas dançando juntas num palco vermelho
As folhas agora são verdes em todas as árvores de Paris
eu estarei em casa em dois meses e te olharei nos olhos.

Paris, Maio de 1958.

      
tradução::: Pedro Pinto (eu).
arte::: "Saudade", Almeida Junior.



27 de setembro de 2016

Quebranto


esboço o passado no
espelho sobre a tua
cama - espelho tão
cansado do mesmo
que parece quadro.

os meus dedos percorrem
o perigo que é estar aqui,
curvilíneo apego tremeluzindo
no abrigo que se faz
em nosso abraço.

dedilho as possibilidades
escorrendo pelo seu corpo
e te observo sob a meia luz
que transpassa a cortina.

você é a menina dos olhos
deste coração partido.
ainda que saiba da crueldade
destes lábios de fúria perene
me rendo à doçura do teu beijo.

mais uma vez, no amassado de lençóis
com você a tiracolo
e o sol se pondo assim como
todas as intenções saciadas.

te tomo em meus braços
num aperto ansioso e nostálgico
indo embora para além túmulo
do que nos tornamos.

eu amei você,
mas o seu grande amor
sempre foi o espelho.


4 de setembro de 2016

Descartes: Elegia Para Sabrina Balaclava




Triste por te ver partir tão cedo. Triste por não te ver. As manhãs tem sido acinzentadas; já faz algumas semanas que o rosa da alvorada fugiu dos meus dias. O tempo passa rapidamente, olho para o relógio e me espanto: me pego encarando para o mesmo vazio habitual, aquele que você deixou do lado esquerdo do guarda-roupas, vazio entalhado em mogno. Ainda outro dia te vi, entre lágrimas, flutuando sobre as gramíneas do retorno.
Triste por estar só. Joana vem todos os dias rezar o terço uma ou duas vezes ao meu lado, silenciosa. Diz que reza por você, mas sei que se preocupa, em grande parte, comigo; acho que eles têm medo de que eu tente me juntar a você. A vida é um entrelaçado dessas distâncias que mal cabem em mim. De repente tudo é um nó na garganta e você é apenas um fantasma silencioso na mastigação dos dias pelo tempo.
Eu não falo. A escrita, para mim, é covardia táctil. Sou eu quem não dá a cara a tapa e contorce os dedos em desconforto para transmitir o mal-estar. Covardia cúbica, por metro quadrado: a cada passo em meu apartamento uma desistência. Do caminhar de nosso quarto até o banheiro sinto ânsia de vômito – à memória socando nosso estômago damos o nome de remorso. À memória apaixonada pelo que poderia ter sido também chamamos remorso. Eu sou só remorso e pressão baixa, nada mais
A porta do seu lado do guarda-roupas está sempre aberta. O que é uma porta aberta para você? Faz algum sentido? Acho que este é um dos jeitos que encontrei para fazer crível a sua partida. Só eu aqui, sentado, sob o silêncio, sob o pesar da sua ausência.



Esse novo segmento, "Descartes", é feito a partir de todos os meus textos que eu não ache que funcionem bem juntos. Esse, por exemplo, é de um pequeno apanhado que seria sobre vida e obra de Sabrina B., só que havia elegia antes mesmo de haver Sabrina, não rendeu muito.

30 de agosto de 2016

Efemérides - 30/08/16


O que brilha nos teus olhos
e escorre pelo canto da tua boca
é o fel no qual habito nessas
noites frias, é a falta que cê me faz.

Eu queria poder brilhar sem olhar
para trás, ser a estrela autônoma
que é só ausência no céu em que
habita. Você é só ausência no céu
da minha memória.
Religiosamente torço o choro no que
precisa ser feito: o aperto no peito
costuma resultar num chão bem limpo.

Respiro, com os pulmões em brasa
e o coração em fúria, buscando por
refúgio no que foge de mim, buscando
por refúgio em você.

Entre soluços e mal entendidos
eu ouço o seu lamento silencioso
e reconheço como sempre foi
belicoso o meu gostar por você.

o poema é todos os dias que me
doem, enumerados, revisados e
prontos para serem entregues
a um destinatário que desconheço.

Quão irônica é esta intenção clara
que surge a partir dum feixe de
desentendimentos? - eu queria
falar só mais um pouquinho, só
o bastante pra sair daqui, sabe?
Eu não gosto do estar só num lugar.
Não gosto de estar só aqui, com você.

Que falta me faz a sua companhia
quando o meu dia não era só esse
eterno matar ou morrer, tentando ser,
um pouco menos, esse alguém que
te afasta e, lentamente, mata o meu
eu mais profundo, mata as minhas
saudades e os meus subterfúgios.

Eu sou coragem líquida transbordando
no chão do teu quarto e queimando a
tua pele - o fogo, seja ele como for, não
tem memória. Eu sou as palavras ditas
e jamais guardadas. Sou as cartas e
poemas que se perdem e nunca são
resgatados - como seria um mundo sem
desencontros?

O dia clama por ordem, seja ela como for.

15 de agosto de 2016

De-cisão



Escolho o terceiro;
no fim das contas
eu escolho o inver-
so do primeiro e fi-
camos assim: você
não liga pra mim e
eu não telefono, vo-
cê não é meu dono
e eu finjo estar nem
aí;

a gente finge que não se
conhece e até se esquece
de quando íamos na sorve-
teria fazer planos de viajar
por todo o nordeste.

você nem gosta desse gostar
de mim, não é verdade? eu sei
que nessa cidade não deve ter
ninguém tão complicado assim,
ninguém que finge o oposto do
reverso e quando é descoberto
nem se lembra mais do que fez.

ninguém que use camisa xadrez no
verão, que só usa bota, que tem a per-
na torta mas que não gosta que você
comente, que odeia que que você se
cale quando as coisas ficam complica-
das, que gosta de deixar as coisas com-
plicadas; que vive pensando no que seria
se não fosse

que gosta de sair só pra comer doce, que
vive correndo para cima e para baixo e 
quando aperta o passo é porque se pre-
para pra fazer temporal - aprendeu a con-
trolar o tempo franzindo as sobrancelhas -;
que nunca tem certeza estando irredutível
e que se faz impossível quando começa
a falar dos assuntos do coração.

eu sei que você nem gosta desse
alguém que nem se importa, mo-
rrendo de amores, calado, vez ou
outra te falando que você já deve-
ria ter partido; eu sei que a gente é
o tempo todo amigo mas vez ou ou-
tra é algo mais.

eu sei que você nem se importa,
e eu também não, mas ele, coita-
do, tá aqui do lado, pedindo para 
te madar um beijo, querendo sa-
ber como é que cê tá, doidinho
para marcar aquela saída, já cha-
mou umas amigas mas sempre
sente falta de você - a eterna man-
cha de quadro na parede do quar-
to das memórias, você.

a gente nem se importa, mas se
quiser aparecer qualquer dia, lá 
no bar das tias ou aqui em casa
não hesite em se aprochegar.
não venha com muitas expetati-
vas ou com as certezas definidas,
venha não se importando. Só estou
certo de que gosto de te ver chegar - 
com isso me importo, e muito.

5 de agosto de 2016

Sobre o Evadir


Sigo andando,
desnorteado,
por estas estradas
implantadas em
minha cabeça.
O corpo dói,
trêmulo,
exausto,
observo as
pegadas do
futuro sendo
apagadas
pelo caminho.

Caminhar é preciso,
sem destino,
sem sorriso,
sem ritmo,
chegar a qualquer
lugar só para ver
que a terra de
luzes gélidas
sobrepõe
os corações
quentes.

Eu também sou um coração partido.

Verto a saudade
dos olhos
e me ajoelho no
meio do nada -
uma saudação
à falta que eu
me faço.

Difícil é estar no aqui.

Eu conto as horas
e os segundos
entre os soluços
e o estar mudo,
eu quero voltar
para quem desejo
chamar de lar,
eu quero voltar
para você.

Difícil mesmo é não fugir
quando o coração
é só devir e nunca ser.
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