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6 de março de 2018

Sol



Ilumina a sala.

e se arrasta, para além das cortinas finas,
como um gato, escalando o cômodo horizontalmente.

robe de cetim azul e turbante amarrado às pressas.
alguém me chama aqui. andando em círculos, solar
e ansiosa. sorrir com os olhos ao sentir que é ele
quem bate à porta, ter as mãos como garras em espanto
e logo fazê-las mãos novamente para recebê-lo.

três beijinhos porque é pra casar e casar bem.
"de preferência comigo." -- pensa ao fechar a porta.
brunch já servido porque seu hedonismo lhe fez virar
os relógios contra a parede. dorian gray abrasileirada.
"eu esperei por você a semana toda." -- ela diz, quase
a contragosto, deixando vontade escorrer dos lábios
enquanto leva o copo com suco à boca.

unhas escarlates roçando umas nas outras, arranhando intenções.
ela passa por detrás dele e arrasta a mão de ombro
a ombro, como uma brisa carregada de desejo.

ao passo que anda até o quarto, dá uma última olhada
por detrás do ombro fazendo-o largar toda a comida.
perplexo enquanto o robe acetinado cai aos pés de sua
anfitriã, "você vem ou não?" ela pergunta. voluptuosa
silhueta desaparece no longo e escuro corredor
à sua frente.


arte::: romain courtois (x)


18 de outubro de 2016

Resenhas - A Poesia Solar de Adriano Espínola



A cidade é um espanto, a cada esquina, em cada calçada suja, árvore por árvore, um espanto. Entre o espanto e a fumaça há Adriano Espínola, nostálgico, romântico e um tanto solitário, acompanhando as lavadeiras e os pores do sol, sentindo na pele cada gota da alvorada e usando as águas para escrever o seu amor através destes poemas.
“Escritos ao Sol” é um abismo poético. Eu me lembro de abrir o livro e me sentir muito mal – foi uma daquelas tristezas que parecem assombrar a alma, sabe? Daquelas que a gente busca beber diretamente na fonte, uma melancolia magnética. 
Em primeira instância Espínola se faz assombro, e logo depois saudade. Sinto, por ele, saudades de alguém que não conheço – talvez saudades de um alguém que gostaria de conhecer.

“Feito um cego ao sol

e em silêncio, 
eu bebo entre as mãos 
a tua ausência.”



A saudade silenciosa, não endereçada, que se faz cartas não mandadas, poemas rabiscados nas profundezas da noite e suspiros inconclusivos. 
Ao contrário do que o título indica, não é um livro de Sol – apesar dos dias ensolarados e paisagens beira-mar serem elementos frequentemente repetidos na obra – “Escritos Ao Sol” é uma antologia das saudades, carícias na memória e no que hoje é vazio profundo, fumaça de escapamento, falta de tempo e desencanto.

21 de agosto de 2016

Do Rancor e do Que Não é Constante




Eu odeio você. Eu odeio quando você aparece pelas minhas costas e me envolve no infinito do seu abraço, nas pressões descompassadas que põe sobre meu corpo, no roçar contra mim ansiando pela rendição da minha boca aos seus impulsos, sedento por um mísero gemido. Eu odeio gemer para você; odeio os seus beijos, odeio os seus milhares de beijos que sempre chegam até mim como os últimos. Eu odeio como cada dia é o último, eu odeio como a gente morre todo dia para voltar na manhã seguinte a ser infinitos por um punhado de segundos. Eu odeio o vazio que se sucede quando você me abandona todas as manhãs. 
Eu odeio ter que acordar de madrugada, após dormir por pouquíssimas horas, e ir fechar os olhos na varanda tentando me convencer de que estou meditando. Eu odeio não conseguir meditar, odeio a minha fúria mental. Odeio ter o meu sono interrompido às quatro da manhã para me ocupar com premissas inconclusivas a respeito do nosso relacionamento. Eu odeio que você não se ocupa com premissas inconclusivas a respeito do nosso relacionamento. Eu odeio ser insone por não conseguir digerir a ideia de estar neste relacionamento. 
Eu odeio você. Odeio cada singelo detalhe em você. Odeio as suas mãos sobrepondo as minhas num afetuoso eclipse de intenções, odeio quando o seu polegar desliza da minha bochecha aos meus lábios e os contorna numa luxuriosa elipse. Odeio tocar o seu corpo em resposta. Odeio como minha mão escorrega de seu peito numa queda lenta e imoral. Eu odeio te tocar e não me sentir mal por isso. Eu odeio não recuar. 
Às vezes acho que você sabe que eu te odeio. Talvez tenha percebido na distância que invade o meu olhar todas as vezes em que eu lhe abandono na cama e me debruço na janela para ver o céu. O Céu me lembra de alguém que me ensinou a contemplá-lo, o Céu me lembra de quem eu tentava esquecer quando te conheci. O Céu me lembra de quem eu não esqueci. 
Eu odeio você por não me encantar da mesma forma de quem eu tento esquecer. Eu odeio você por se rebelar contra o meu querer e ainda assim me domar. Eu odeio você por não me despertar amor – pelo menos não o que eu aprendi a chamar de amor. Eu odeio você e odeio odiar você; acho que porque lá no fundo eu admito que você me mudou. Eu odeio gostar mais de quem sou hoje do que de quem era antes. Eu odeio admitir que a mudança não me dói, e para não pensar nas mudanças eu me ocupo odiando você. Odeio você. 
Eu odeio você. Quando grita meu nome e corre até mim, te odeio. Quando te recebo em meus braços, te odeio. Quando selamos nosso encontro com um beijo, te odeio. Quando me vejo mais uma vez dividindo os mesmos lençóis contigo, te odeio. Quando recomeço o dia e já me esqueci de tudo o que se passou, enquanto você dorme na cama ao lado, no primeiro raio de sol da manhã, te amo. Te amo mas só um pouquinho, só por uma fração de segundo, sussurro sob o Sol, sobre o teu sono, cê nem sabe, mas na calada da manhã te amo, até por demais.

18 de junho de 2016

Verão I


Palmeiras sinfônicas
farfalham suaves
por uma brisa solitária.
Horizonte-areial -
mar tão distante
quanto o teu afeto.

Aguaceiro do mês
passado escorreu
pelos olhos
da praia;
levando tudo,
lavando a todos.

Sol à míngua
do medo,
confrontando
o terror
dos próprios
raios
na alvura
da praia.

Mudez maremotriz.
faíscas de eletricidade
das palavras
jamais ditas.
O silêncio queima
a pele do presente.

A língua é o
chicote do ar;
a brisa só vai
em direção
ao estar-só,
estar-sol.


Boiando em
memória,
terror a
pino.
Tomo
as mãos
em concha,
só
me
vem
você.

Aguaceiro do mês
passado só não
conseguiu
te levar
de mim.

12 de junho de 2016

Sobre o Ser


Eu apareço e desapareço;
na revoada das borboletas estomacais,
na amplidão do litoral,
na candura do amanhecer,
no ter que dizer adeus.

Eu sou a efemeridade
dos dias,
eu sou os dias em sua
infinidade ociosa;
na intermitência do inevitável
eu sou o milagre;
e por detrás do ser-milagre
sou o dia que nunca chega. 

Sou só.
Sou sol,
sol das cinco,
céu de zinco,
trincado
e trancado
na dificuldade
de ser.

Não se vence o invisível,
não se vence a si -
pelo menos não enquanto
incerto - 
e não se vence o Certo
porque o Certo
é a antítese
de mim e
do querer;
o meu querer não
te quer por perto.

20 de maio de 2016

Efemérides - 20/05/2016


Hoje o sol brilha em desconforto
nasce em casa mas se põe em lugar nenhum -
na metade do dia o acomodado se vê
incomodado e busca uma solução.

Você fala muito pra quem não tinha nada a dizer.

O silêncio é sintomático.
Hoje adormecemos sob o véu das divagações.
De repente já é noite e eu nem percebi.

O dia caminha prum tempo que não tem nome
e se separa de si para ser mais plateia
e menos espetáculo. 
Dia patrono das dificuldades de ser.

Quem pouco fala e só faz também não chega
a lugar algum.

8 de janeiro de 2016

Não Tenha Medo, É só o Sol Poente...

A minha única inspiração é o pôr do sol.
Que atravessava a janela triste e formava um arco-íris que se dividia em dois e iluminava o meu rosto.
Que contemplava miríades de pequenos yuppies incrédulos mas altamente influenciáveis batendo palmas para a celebração do ócio e da solidão dos grupos.
Que conversava com os pavimentos, melancólico e dramático.
Que deslizava pelos céus cortando o horizonte róseo e deixando que os tons púrpura invadissem o cenário.
Que se ressentia de que a Lua que em toda sua timidez e resguardo era romantizada enquanto ele sentia-se negligenciado.
Que se esforçava para ser notado porque era uterinamente solitário.
Que sussurrou em meu ouvido, choroso, o quanto se ressentia do mundo que celebrava a sua queda.
Que destruía a si mesmo só para ver se alguém prestaria atenção.
Que disse a mim num lamento, ou talvez numa eulogia a si mesmo, enquanto acendia um cigarro, que não se arrependia de nada. Que vencer era um eufemismo para o fim, e que na infinidade e excelência de suas tentativas ele se recusava a terminar seu espetáculo.
O Sol me disse, enquanto poente, que ele era solitário, muito solitário, e disse que no fim todos nós somos assim. Eu chorei pelo Sol e por mim mesmo. Nós olhamos no fundo da alma um do outro e achamos um alento em nosso melancólico elo. 
A minha única inspiração é o pôr do sol.
Que emulou o meu estado de espírito para que eu prestasse atenção no que ele realmente queria dizer e não em suas palavras.
Que me deu a mão e me beijou num fim de tarde, fazendo com que as palmas nas praias realmente fizessem sentido. Caminhamos por uma estrada púrpura a caminho de uma noite infinita.
A minha única inspiração é o Sol poente, que me mostrou a beleza sobrenatural e invencível do invisível.
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