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30 de abril de 2018

A Rosa Doente - William Blake



Ó Rosa, estás doente.
O verme invisível
Que voa à noite
Na tempestade uivante:

Achou tua cama 
de alegria carmesim:
e seu amor secreto e obscuro
destrói tua vida.


arte::: aqui
tradução::: pedro luz


8 de dezembro de 2016

Terapia I


Quase osso,
ouvindo o fel
pingar na
banheira que
sou, no lamaçal
de desamor
em que eu
me acabo;

o último ato
desta eulogia
é uma página
inteira
dissolvendo-se
em lágrimas.

Padeço,
principalmente
nos últimos
tempos,
de um estar-
cônscio-de-mim
tremendo

e ainda me
pego, às vezes,
quando a noite
resolve mordiscar
o meu bem-estar,
trêmulo, choroso,
por não
saber lidar com a
dor que é me
conhecer em
demasia.

Eu não sei o
porquê,
só sei querer,
mais e mais;

quem sabe
eu não conheça
algum outro
rapaz que
preencha
o vazio que
você me deixou.

Quase morto,
me pego nos
braços e retraço
um alguém que
o tempo quase
apagou.

22 de março de 2016

Dos Poetas



Por dentro quase que não presta.
Por fora se fez poeta;
mas por dentro ele quase que não resta.

Na choradeira muda
das palavras que não ousam atravessar a garganta
ele se cura e procura o que lhe falta.
No que não passa da garganta reside a ânsia -
de sumir, de se encontrar, de sair do lugar comum -ela está lá.

O poeta é urgente e trágico
ainda que não pareça 
ainda que em sua sua cabeça
o coração bombeie sensatez pelos 
vasos da memória.

O poeta é súbito.
O rancor vem de rompante
e em poucos instantes
ele se despedaça.

O poeta,
o anjo de barro em calçadas do centro
distribuí panfletos
ansioso
para que alguém lhe devore o sentimento.

O poeta é um vidente defasado.
É cabeça dura. Só vê devaneios e desilusões.
Só gosta de falar de passado.
O poeta só é poeta porque tem medo de não ser amado.

E na solidão de sua existência
o poeta contempla a dificuldade de ser.
Não procura justificar as suas falhas
ou apontar os próprios defeitos
apenas contempla o imperfeito
e goza da dor e da delícia
de ser quem é.
  
o poema é meu mas o gif abaixo bem que encaixa.

Burroughs + Ginsberg = ♡



11 de novembro de 2015

Torna-te Aquilo Que És


Sou uma ilusão de óptica na parede do quarto.
Um intervalo de tempo melancólico
Sou as lamúrias que inundam o dia frio.

Sou a coragem de desistir,
A beleza no abandono
E o preço da liberdade.

Sou o medo de seguir em frente,
O fascínio do primeiro amor
E o desconforto da primeira dor.

Eu sou a apoteose dum coração partido,
O perigo de se apaixonar
E as tardes vazias num fim de semana.

Eu sou o vazio existencial.
E sou a existência.
E sou a resistência.

Às mudanças.
Às pessoas novas.
Eu sou o resistir em seu melhor.

Eu sou a uma linha da vida curta na quiromancia
Sou uma cigana cega.
Sou ilhas de fortuna.

Sou candura.
O meu coração é verdadeiro.
Mas a minha mente não.

Quem será o herói?
Eu não sei.
Eu não sou.

Tenho medo de saber quem é.
Tenho medo de não ser salvo.
Tenho medo de não voltar para casa.

Sim, eu também sou a dependência emocional.
E tenho sido por tanto tempo.
Que desaprendi a sentir por mim mesmo.

Eu sou o esquecimento
E também sou memória
Sou as feridas do tempo.

Eu sou as chaves erradas
Para portas seladas
Para quartos vazios.
Eu sou todas as crianças prodígio catatônicas.
E todas as mães obcecadas.
E todas as modelos infantis.

Eu sou a coragem
A loucura
E a solidão.

No final eu sou a mesma coisa com nomes diferentes.

17 de julho de 2015

Cheia de si - Implodiu


Você começa a perceber que a sua rebeldia não te torna mais tão legal. Você nada contra a maré, mas ninguém tem olhos para você, todos estão ocupados demais vendo algum pinguim morto à beira da praia, duas mortes: a do pinguim e a sua, afinal sem a devida atenção você não vive.

Ninguém mais liga para você, a sua rebeldia e os seus meios de praticá-la são tão previsíveis que decidimos chamar de rotina e te esquecemos num canto, talvez por isso se ressinta, não sei, quando se trata de você nós nunca temos certeza de nada.

Eu sei que você acredita ser genial, revolucionária, portadora de um frescor criativo, mas não deveria. Eu tive que ser realista. Tive que lhe mostrar que as coisas não são tão boas quanto você pensa. Se dependesse de mim teria sido mais doce na fala, mas o discurso não foi meu; naquele momento a minha voz foi o eco do mundo, talvez por isso você se ressinta de mim, porque eu fui o portador das más notícias.

Os garotos que você acredita estarem aos seus pés: metade deles não sabe o seu nome e a outra já tem namoradas (sem contar os que tem namorados). Você não tem se saído tão bem nos testes, mas ainda assim se diz a melhor de todas, eu lhe provo o contrário.

Neste momento você me odeia e me ataca com confissões de fim de dia: “Você não consegue namorar ninguém, todos foram embora, todos te deixaram, você não tem sido nada além de um caso por uma noite”. Ela não mente, é tudo verdade, mas quem é verdadeiramente solitária é a própria agressora – sedenta por atenção, hoje rasteja nos vestígios de quem já foi e daqueles que lhe emprestaram luz para que esta pudesse refletir.

Ela é um sol poente que me entristece demais. No geral gosto de pores do sol, mas esse me entristece profundamente.

Você chegou aqui cedo demais. Aqui nós esmagamos aqueles que nos necessitam; pulverizamos sonhos e obliteramos corações. Você deveria ter pego o próximo ônibus ou parado para tomar um sorvete, tudo para que não chegasse a tempo de não nos conhecer, mas chegou.

26 de junho de 2015

Pedido de Amor



Quinhentas mensagens e nenhuma carta de amor.

Nenhuma garantia de estabilidade.

Nenhuma certeza de final feliz.



Te vi outro dia, rindo, conversando; te vi feliz.

Suspeitei. De você, da tua companhia, do teu sorriso.

Para que gastar sorrisos senão comigo?

Não vejo necessidade.



Não vejo necessidade também que os nossos olhares se percam.

E nos reencontremos alheios um dos outros.

Ainda que lado a lado.

Não vejo necessidade da nossa solidão a dois.



Apesar de que você continue dizendo que as coisas estão bem.

Eu preciso lhe corrigir.

O problema não são as coisas, o problema sou eu.

Eu não estou bem.



Não estou bem com a sua dispersão.

Não estou bem com a leveza que você encara tudo.

Não estou bem com o seu desapego.

Não estou bem.



E não venha tentar me silenciar dizendo que eu estou exagerando.

Sim, eu estou exagerando, mas eu preciso exagerar.

Exagero porque a tua calma me sufoca.

E tua ausência me envenena.



Exagero para que me note mais.

Para que largue dos outros e volte para mim.

Ou será que você nunca esteve aqui?

Eu esqueci, o coração não.



O meu coração monogâmico não aguenta as suas liberdades

Os seus olhares e os seus toques.

São demais para que eu não sofra.



Peço que volte ou saia de vez.

Peço que olhe mais para mim e menos para o mundo.

Porque aos poucos o mundo dentro de mim tem ruído.

E você nem percebeu.

2 de janeiro de 2015

Sobre Posia e Memória

Poetas são privilegiados por sua sensibilidade, por sua percepção aguçada sobre o mundo e sobre as pessoas, poetas conseguem enxergar o melhor e o pior de tudo e talvez por isso amem demais e também sofram demais.
O poeta quer apagar a dor de seu coração partido e a dor dos abusos que sofre do mundo, talvez por isso fala constantemente de abandonar sua memória, citando um dos versos de Drummond "Pôr fogo em tudo inclusive em mim", mas o que acontece quando nós é que somos abandonados pela memória?
Recentemente acompanhei o declínio de um de meus familiares, mais precisamente a minha avó paterna, que não era uma poeta, intelectual, nem nada do tipo, nunca desejou que sua memória a abandonasse apenas pelo requinte de abrandar a dor, e em toda a sua sabedoria já conhecia o que os pretensiosos poetas desconhecem, a memória forma-se somente quando há dor, quando não há descaracteriza-se como memória, mas mesmo tanta sabedoria não lhe impediu de esquecer.
O problema do poeta é que ele é desrespeitoso, alguns disfarçam bem, mas ainda são os poetas majoritariamente desrespeitosos, e por o serem não conseguem respeitar nada que os faça mal, que os machuque, respeitam a força, mas não as negativas, e por isso não entendem seu valor. A dor e o erro vêm para nos fazer compreender melhor as coisas, a vida, incrustam-se na memória para que nunca esqueçamos do certo, do que se deve fazer para que não haja mais dor e sofrimento, a dor e sua subsequente memória são males necessários. 
Àqueles que continuam descrentes no que falo, peço-lhes que pensem na beleza dos verões obliterando-se nas profundezas de nossas mentes, nos amores notívagos, na juventude faiscante, pensem em tudo que lhes faz sentir saudosistas, que lhe faz sorrir apenas em lembrar, pensem em como é triste a beleza poente da memória.
À minha avó espero que descanse em paz, e que como consolo tenha o legado que deixa, filhos, netos, pessoas que honram sua memória, sua existência apenas lembrando dela de forma carinhosa, sentindo saudade e ficando tristes o mínimo possível, e para os que leem este texto peço-lhes que honrem suas memórias, aceitem-nas por completo, boas e ruins, a única coisa que deixaremos neste mundo são os nossos feitos, a imoral e imortal memória.
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