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18 de junho de 2016

Verão I


Palmeiras sinfônicas
farfalham suaves
por uma brisa solitária.
Horizonte-areial -
mar tão distante
quanto o teu afeto.

Aguaceiro do mês
passado escorreu
pelos olhos
da praia;
levando tudo,
lavando a todos.

Sol à míngua
do medo,
confrontando
o terror
dos próprios
raios
na alvura
da praia.

Mudez maremotriz.
faíscas de eletricidade
das palavras
jamais ditas.
O silêncio queima
a pele do presente.

A língua é o
chicote do ar;
a brisa só vai
em direção
ao estar-só,
estar-sol.


Boiando em
memória,
terror a
pino.
Tomo
as mãos
em concha,

me
vem
você.

Aguaceiro do mês
passado só não
conseguiu
te levar
de mim.

30 de agosto de 2015

Homens ao Mar

Eu espero, paciente; no porto da vida sou o pescador velho dentre as lanchas e balsas. Peixes e vinagre balsâmico, sol, maresia, melancolia dominical – Não retornou; acho que não retornará.
A madeira puída sob mim sustenta o cais e me faz lembrar de você. Lembro-me de quando nos conhecemos pela primeira vez, nesta mesma zona portuária, eu fingia ler a sorte dos marujos, lhes dizia que as coisas ficariam bem e que suas mulheres esperariam por eles, mentiras marítimas; ninguém além de mim espera, as pessoas movem e transformam-se; pensando bem até eu devo ter me transformado, neste mormaço diário do meu excruciante exercício parte de mim secou, a outra reduziu.
Morrer na praia. Sereias nadam na areia – estéreis, lagostins degolam tainhas e peixes barrigudinhos nadam livres.
É complicado ser pescador e ser fisgado. Não gosto de anzóis, pelo menos não na minha garganta. Não és eternamente responsável pelo que cativas, nenhum dos teus antecessores foi, porque cobraria isto de você logo agora?
Olhos vidrados na linha do horizonte, vejo um barco, distante, enferrujado, lento, mas é um barco. Alguns minutos depois e já posso enxergar você dentro dele; não sinto borboletas no estômago, talvez lagartas, mas definitivamente não são borboletas. Eu acreditava estar aqui te esperando, mas quando te vi resplandecer ao pôr do sol quis ir embora, fisgaram a isca e a vara balançava enquanto você se aproximava, mas eu precisava ir.
Deixo uma presa libertar-se, pego o meu balde de iscas, a minha vara de bambu e levanto. Neste momento o barco está próximo, fazemos um desconforto visual, aquele de dois estranhos apegados. Antes ligados pelo fantástico tempo agora nos separamos pelo físico. Sugiro que não desembarque para retornar para mim, porque já não há mais eu para você retornar.

Castelos de Areia

Pena que dissolvem, os tais castelos; sob o sol quente a areia esfolia e pele e ao mesmo tempo dá forma a uma moradia fantástica. Quem viverá em nossos castelos? Por quanto tempo? Como lidar com a queda depois da ascensão? São perguntas que fazemos o tempo todo porque convenhamos: apesar de belos as construções de areia são preocupantes.
Quando criança fazia muitos castelos de areia, quem via não dizia que era castelo, alguns achavam que eram bonecos, outros achavam que eram grandes poços e a maioria dizia que era uma grande bagunça, estavam todos errados. Não se analisa um bom castelo de areia por suas partes, mas pelo conjunto. Eram bagunçados, mal projetados e assustadoramente instáveis, mas eram meus castelos, e eu os adorava.
Como vencer o invencível medo de perder aquilo que é construído? Não é possível, mas continuar tentando é importante. Tentativa e erro são relevantes para que nos tornemos mais astutos, principalmente no que diz respeito ao social. Associando a metáfora de castelos de areia a relacionamentos pensemos o seguinte: você acabou de sair do seu terceiro namoro fracassado em menos de dois anos; game over – tentar outra vez? Sim, porque o melhor de nós também é o pior, e vice-versa. São as experiências ruins que posteriormente nos encaminham para as boas; a vida é um ciclo.
Ascender é belo e decair é preciso.

2 de agosto de 2015

Considerações Dominicais: Me Desculpe, Mas Não Há Nada Que Possamos Fazer

Acordei às oito em ponto neste domingo de sol e nuvens cinzentas. Tive um sonho horrível, cujo eu não era protagonista, mas senti como se fosse. Se tratava de uma menina pobre que oferecia serviços sexuais à beira de um cais. Talvez em alguns momentos a garota fosse eu, a dor se assimilava, apesar de eu nunca ter me prostituído (pelo menos não que eu me lembre).
Um dia ela encontra um rapaz e literalmente o arrasta à sua barraca beira-mar. Era um lugar horrível, o qual ela dividia com o seu irmão mais novo, trabalhava enquanto o garoto estava na escola. O rapaz não queria estar ali, sentia a degradação da moça lhe machucar, o desespero lhe feria. Mas ela argumentava, dizia que tinha bons preços e que faria o que ele quisesse.
Antes que os dois pudessem continuar qualquer embate um velho conhecido da garota chega e a chama para uma “rapidinha” no carro. Ela sai dali; o garoto que foi arrastado queria conversar e até a chamou para uma festa, mas esta não ligava para festas, mas sim para o trabalho e seu irmão, suas duas únicas preocupações.
Eles foram até um local mais distante; o homem estacionou na lateral de um edifício residencial da orla; os vidros eram escuros, ninguém os flagraria. A partir daí as coisas ficam metafóricas demais e confusas demais, eu acho que de certa forma entendi o que o meu inconsciente queria fazer, quis falar de traumas e de tabus, os trouxe através de entretenimento.
Uma curiosidade aos que me acham criativo: Tudo que escrevo não passa de realidade camuflada. Às vezes a realidade dói demais para ser conversada, então busco na literatura um bálsamo.
Sei que no final do "serviço" ela se transforma uma sereia por alguns momentos, e depois volta a ser humana. Saí do carro acompanhada por um papagaio que descreve o cenário a sua volta em busca de perigo e duas caixas de presente falantes.
A cada trinta segundos o papagaio fala de algum lugar distante em que se esconde uma pessoa. As caixas não conversam muito; todos caminham com ela em direção a barraca, já é noite, eles seguem pela estrada principal.
Quando avistam a barraca, as caixas correm em direção ao irmão da garota, que cochilava recostado a entrada; ficou esperando-a desde quando chegou da escola. A garota acelera o passo, e o papagaio a acompanha. Quando chega lá encontra as duas caixas e os meninos aos prantos, ela pergunta a uma delas o porquê de chorarem.
- Nós choramos porque é muito triste estar aqui. É um lugar horrível para se viver, no meio da estrada, todos passam, você continua aqui, sozinha. É triste, nós queríamos poder te ajudar, mas há nada que possamos fazer. Por isso choramos. – Diz uma das caixas.
A garota se ajoelha, olha ao seu redor, as ruas estão vazias, a luz dos prédios gradualmente se apaga e o papagaio encara o chão do cais. Ela começa a chorar, e responde às caixas:
- Eu sei que é horrível. Eu quero muito mudar, mas é difícil. – Ela faz uma longa pausa e continua, aos prantos:
- Eu vou mudar.... Eu preciso.
Aí eu acordei e vim sobre esse sonho incomum, que de tão metafórico acho que serve perfeitamente para uma consideração dominical, sem tirar nem pôr. 


ps: este é o centésimo post do blog, passou tão rápido este a quem chamamos de Tempo, não é mesmo?
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