Mostrando postagens com marcador Crescer Dói. Mostrar todas as postagens

17 de dezembro de 2016

Sobre o Adolescer



o riacho
ultrassensível que corta
o quintal da minha casa
nunca  me deu pé,
até os meus dezesseis
anos, quando quem
não me deu pé
fui eu.

minha mãe chorou
dez anos em poucos
meses. todos os dias
uma lágrima lhe 
escapava para empoçar
aquilo que no futuro
se tornaria um espelho
turvo para um Narciso
acinzentado

filho pródigo 
retornando a 
uma casa submersa 
em mágoas -
eu só queria 
poder te culpar
pelas noites em
claro e pelo aperto
no peito

deito na grama às cinco 
vendo o céu-rosa-hortênsia
e sentindo cada gota
de orvalho emocionando
meus poros - em minha
pele a sua ausência
escorre corpo afora.

11 de dezembro de 2015

Jardim Santo Inácio, Estado Espiritual

Jardim Santo Inácio, estado espiritual
Lotações de plástico estufadas com toneladas de sonhos exaustos às seis da tarde de uma segunda-feira
Tamancos do mesmo plástico sob o sol mais livre do que eu e você jamais pensaríamos em ser
Jardim Santo Inácio, onde meu futuro se emaranhou nas entranhas da desesperança.
Onde racionalizei a minha própria condição e a confrontei rodeado pela poeira sobrenatural duma noite de setembro.
Onde as minhas intenções eram incondicionalmente puras, apesar de que meu corpo não era;
Onde eu acreditava em amor verdadeiro e realmente me esforça para alcançá-lo.
Jardim Santo Inácio, o berço das minhas lamúrias.
Onde nós passávamos os dias caminhando em círculos ao redor de nossas próprias almas.
Onde o brilho sobrenatural e fantasmagórico da vida adulta nos cegava e nos fazia pedalar por rivieras de ilusão.
Jardim Santo Inácio, onde mentiram para mim;
Onde disseram que cacetetes e sprays jamais partiriam os espíritos daqueles que acreditavam em si mesmos - primeiro eles partiram o meu rosto, e depois o meu espírito.
Onde toneladas de trabalhadores marcharam indefinidamente para mover a cruel e inexorável roda da fortuna humana.
Onde um serafim enlameado beijou a minha testa, sussurrou em meu ouvido e chorou pela minha alma.
Jardim Santo Inácio, onde todos nós éramos anjos e acreditávamos em alguma coisa.
Onde o pão era feito da própria alma e a alma feita do próprio pão.
Onde as foices eram etéreas e os dias infinitos.
A infinidade da foice colapsando na garganta do tempo.
Mormaço e melancolia rompendo as estruturas e os pressupostos.
Jardim Santo Inácio, onde viver e ser visto era revolucionário e extremamente perigoso.
Jardim Santo Inácio, onde a minha cor era profundamente trágica apesar de ser belíssima.
Jardim Santo Inácio, onde todos nós éramos culpados até que se provasse o contrário.
Jardim Santo Inácio, onde apesar de tudo eu era verdadeiramente eu;
Jardim Santo Inácio, um estado espiritual. 


Nota: Essa foto não foi tirada no Jardim Santo Inácio, mas sinto uma força tão grande dela, desde que vi o ensaio na vice, me apaixonei! É uma das melhores que vi este ano, me causa algumas sensações que tento causar com o poema então resolvi usar; espero que gostem dela tanto quanto eu.

16 de março de 2015

Floral

Sobre gramíneas. Narciso deita-se na relva e acompanha o movimento das nuvens, que eram poucas e rapidamente sumiam na imensidão do céu veranil.
Avista próximo um lago, segue em sua direção arrastando-se lentamente como um caracol num dia quente, vagando despretensiosamente por um galho. Conforme aproxima-se do lago a grama que bate em seu rosto encurta, e em pouco tempo a visão do verde é substituída por um límpido espelho d’água, mas Narciso não busca o seu reflexo, mas sim o céu e o frescor das águas do dezembro sul-americano. Narciso submerge a parte inferior de sua cabeça no lago, os cabelos flutuam, adentra mais um pouco as águas translúcidas e deixa o corpo boiar.
Ouve galhos quebrando e assusta-se, perde o equilíbrio e afunda, mas rapidamente emerge, curioso, afinal acreditava estar sozinho. Narciso sai do lago e segue em direção à origem do barulho, atrás de uma árvore, anda devagar, mas não por medo, apenas estava cansado de vagar o dia inteiro por aí, sem algum propósito.
O jovem Narciso admira-se ao descobrir a origem do barulho, uma mulher de cabelos brancos, platinados, brilhantes, e rosto efêmero, a cada olhar de Narciso o rosto dela mudava, às vezes jovem, outras velha ou até meia idade. Tinha olhos marcantes, mas ainda assim vazios, fitava o lago com melancolia, um ar saudosista, de que perdera algum que nunca mais voltaria a ser o que foi. As flores concentravam-se ao seu redor e os galhos a protegiam, uma rainha muda de reino barulhento, à sua maneira. A mulher desvia o seu olhar com se tivesse saído de um transe, olha para Narciso e o pergunta:
- Quem és tu? – E toca os cabelos a espera de uma resposta.
- Eu sou Narciso, moro aqui perto, e você?
- Você não me respondeu, quem és tu? – Insiste a mulher.
- Sou Narciso, não sou outro alguém, ou coisa...
- Quem disse que você é coisa?
- Não sei, pensei em ser objeto, em ser coisa, e fui um pouquinho, ou pensei ser, talvez tenha realmente sido, mas não me lembro...
- Tão jovem para lembrar... – Murmurou a mulher...
- Mas quem é você? Você aparece do nada com um monte de enigmas e perguntas mas não sei nada sobre você...
- Eu sou.
- É o que?
- Sou e ponto, não preciso me afirmar.
- E por que eu preciso?
- Porque me permitiu lhe questionar.
- Como eu posso saber quem eu sou? O que eu sou?
- Você não sabe, a gente nunca sabe, mas somos e ponto, nada de parágrafos, apenas finais.
Narciso expressa confusão, a mulher esboça um sorriso sutil e continua:
- Eu tenho te visto passar os últimos dias aqui, calmo, sem preocupações. Neste caminho você não vai a lugar algum, o tempo em que você quer viver não existe mais, é apenas memória. Chegou a hora de amadurecer, de crescer, de endurecer e tentar não perder a ternura por mais difícil que lhe possa parecer. Você precisa abandonar a segurança do ridículo, tem que permitir ao mundo que ele lhe machuque...
- Mas eu não quero que o mundo me machuque... – Diz Narciso, já fragilizado.
- Mas ele vai! Mais cedo ou mais tarde ele vai e não há nada a fazer a não ser se preparar.
A mulher aparenta estar um tanto quanto angustiada, olha para o céu, respira e continua:
- Você não tem escolha Narciso, a vida não é feita só de flores, rios e chocolates.
Quem é você? – Indaga choroso e aborrecido.
A mulher fica em silêncio por algum tempo e em seguida responde:
- Eu sou um tempo, não o abrangente tempo, mas um tempo específico, e neste momento eu sou o tempo de você crescer...
Narciso ajoelha no chão inconsolável, não sabe ao certo porque chora, mas sente que precisa fazê-lo, soluça enquanto sente a sua própria mortalidade, a sua desconexão com a natureza, com os rios ancestrais. Toca a água, a grama, as flores, tudo o que se pode sentir saudade é saudado, melancólico, Narciso procura a mulher mas esta já havia sumido junto com as flores e galhos que a cercavam, era mais do que claro que precisava ir embora. 


Nota: A imagem utilizada como capa foi uma edição da obra "Vines" da artista Chloe Marsters, você pode conferir seu tumblr clicando aqui e a obra "Vines" completa e sem edição aqui.
Tecnologia do Blogger.

Seguimores