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28 de março de 2018

Silêncio - Marianne Moore


Meu pai costumava dizer,
"Pessoas superiores nunca fazem visitas longas,
ninguém tem que lhes mostrar a cova de Longfellow
nem as flores de vidro de Harvard.
Independentes como o gato --
que leva sua presa à intimidade,
a cauda mole do rato pendurada como um cadarço para fora de sua boca --
às vezes elas apreciam a solidão,
e podem ter sua fala roubada
por outra que as encanta.
O sentimento mais profundo sempre se mostra no silêncio;
não em silêncio, mas restrito."
Também não era insincero dizendo "Faça de minha casa sua pousada."
Pousadas não são residências.


arte::: aqui.
tradução::: pedro luz.


23 de julho de 2016

Hábitos - Do Efêmero e Do Vazio


Falava mais alto que todos, sua voz transpassava até a paz da sala que ficava no final do corredor daquele velho prédio de pintura descascada, chicoteando o ar com a extensa língua em acessos cíclicos de antipatia. Diferentemente de seus contemporâneos ele recusava-se a fixar-se em um só lugar, tinha a necessidade de estar em movimento, precisava que seu percurso fosse mapeado pelos olhos de alguém. 
Do agitar dos dedos na cadeira de madeira puída ao engolir seco com o passar das horas num mesmo lugar, eu sei que ele não quer estar aqui, eu também não; o lugar em que eu preciso estar é claro,  é num tempo futuro - por mais que me doa admitir isso eu pertenço às minhas ideias -, o meu coração está com o amanhã, habitar o presente e os seus horrores é o único caminho ao futuro, e é por isso que o trilho, exausto.
O homem que vejo através da sala busca o desconhecido, e isso é o que lhe causa ansiedade: não saber o que lhe move e ainda assim permanecer em movimento imbatível.
Ele caminha orgulhoso de tudo o que pode ser - tem orgulho de sua inquietação pois vê em si um revolucionário nato -, mas ao mesmo tempo lamenta a impermanência de seus vínculos e a solidão do vazio. 
Ser jovem é essencialmente ter medo de crescer e ter medo dos vazios que contrastam com a nossa existência. Sei porque sou e porque tenho. Apesar de ansiar por viver em minhas ideias eu me apavoro em pensar que nem todas elas se tornarão realidade, me apavoro porque aprendi que as coisas são assim, e de fato são.
Eu e ele não rimos das mesmas coisas, pelo menos não até ser conveniente, e não buscamos as mesmas pessoas. A vida em redes é embaraçada. Um nó cego no dia a dia, te ver e tentar lhe conceber como invisível é um dos muitos ecos da minha vontade que nunca assenta. Pertenço ao futuro, talvez por isso queime em fúria momentânea sempre que te vejo.
Rotina da ressurreição. Me acostumei a morrer todos os dias por tudo o que não foi amor. Seguir em frente, seguir a estrada dourada do presente, é voltar a viver.

12 de junho de 2016

Sobre o Ser


Eu apareço e desapareço;
na revoada das borboletas estomacais,
na amplidão do litoral,
na candura do amanhecer,
no ter que dizer adeus.

Eu sou a efemeridade
dos dias,
eu sou os dias em sua
infinidade ociosa;
na intermitência do inevitável
eu sou o milagre;
e por detrás do ser-milagre
sou o dia que nunca chega. 

Sou só.
Sou sol,
sol das cinco,
céu de zinco,
trincado
e trancado
na dificuldade
de ser.

Não se vence o invisível,
não se vence a si -
pelo menos não enquanto
incerto - 
e não se vence o Certo
porque o Certo
é a antítese
de mim e
do querer;
o meu querer não
te quer por perto.

24 de abril de 2016

Sobre as Dificuldades de Ser


Não sei o que fazer a respeito destes embaraços e especulações. É difícil coexistir com as pendências - seja com as pessoas, com os lugares ou com o tempo. No fundo do poço a alma pesa e não flutua para a superfície, no fundo no mundo eu não consigo respirar; a dificuldade de ser me sufoca.
Falando na dificuldade de ser, é no livro de título homônimo que Jean Cocteau desabafa: "Aqui mesmo, onde deveria frear a mente e viver introvertido, não paro de conversar com você".  Neste ponto, pelo menos nesta frase, sou como Cocteau. Sei que deveria desacelerar e acolher um pouco mais o silêncio que habita em mim, mas não o faço. Quando me vejo perto das conclusões interrompo a mim mesmo com um turbilhão de ideias e afundo num novo ciclo.
A incerteza me move. Eu, tão certo de mim e das coisas que quero, busco as pessoas que fogem das minhas incessantes perguntas e encontram nas não-respostas um abrigo. Começo a perceber as minhas certezas sob uma nova ótica, mais solitária e desinteressante. Toda certeza abriga um vazio nas costas - o silencioso período entre um término e um novo começo.
O incômodo não pode ser ultrapassado. A única coisa que nos resta é caminhar lado a lado com ele. Nos términos estamos ao seu lado, e nos começos também; apenas no decorrer dos processos ele consegue estar à nossa frente, anestesiando-nos das coisas que nos perturbam e/ou fazem mal - esta é a famigerada zona de conforto.
As zonas de conforto são interlúdios da vida. Momentos em que nada verdadeiramente relevante acontece - até porque não nenhuma revolução é filha do conforto; elas são fruto do incômodo. Nestes pequenos interlúdios, nestes êxtases em pequena escala nós conseguimos transcender a dificuldade de ser. Nos interlúdios da vida dizemos para nós mesmos: "Respire." antes de partirmos para um novo sufoco, para um novo fim ou começo.
Claro que existem os covardes, as exceções. Quem lhe escreve é um covarde, e não tenho vergonha em admitir isto. Me inconformam os finais, ou os começos entrançados - eu só tenho coragem para fugir. Das pessoas que me cobram certezas eu fujo. E não pensem que o faço por maldade, eu fujo para não despejar sobre ninguém falsas esperanças. A minha dificuldade de ser reside justamente na minha efemeridade - minhas vontades zombam de mim.
E neste exato momento, onde deveria arranjar uma conclusão apropriada para este texto, me pego pensando em publicá-lo incompleto, tal qual a minha própria essência. Infelizmente a conclusão é recheada com uma certeza da qual eu não disponho. Ao meu alcance estão apenas algumas palavras que podem soar reconfortantes pra quem se identifica com as minhas divagações.
As coisas vão se resolver. Eu sei que é difícil de acreditar, mas vão. Não estou dizendo que tudo vai dar certo pra você, nem sempre vai. Mas você sempre poderá começar de novo - é aí que a existência não pesa; os novos começos, a transformação são inerentes à vida. Acredite em mim quando lhe digo que tudo vai se resolver.
Não quero lhe motivar a nada. Eu só tenho um amor profundo pelos meus semelhantes. Eu realmente torço para que tudo dê certo para você, leitor-companheiro. Espero que a tua vida mude, independentemente do rumo que ela esteja tomando, espero que se surpreenda.
Não caia na rotina, não morra na praia. Não pare aqui, neste ponto tão só, fazendo as mesmas coisas com as mesmas pessoas dum jeito tão igual. Leitor, não pare aqui, não morra aqui, porque eu te amo, porque você, de certa forma, também é parte de mim.
Leitor, faça desta dificuldade de ser um desafio. Aceite suas falhas. Seja excelente. Seja péssimo. Leitor, saia da sua zona de conforto. Eu sei que é difícil, lembre-se que sou um covarde, mas lhe peço porque te amo. Saia de si e encontre um novo você para desafiar o Mundo. Se surpreenda.

30 de agosto de 2015

Castelos de Areia

Pena que dissolvem, os tais castelos; sob o sol quente a areia esfolia e pele e ao mesmo tempo dá forma a uma moradia fantástica. Quem viverá em nossos castelos? Por quanto tempo? Como lidar com a queda depois da ascensão? São perguntas que fazemos o tempo todo porque convenhamos: apesar de belos as construções de areia são preocupantes.
Quando criança fazia muitos castelos de areia, quem via não dizia que era castelo, alguns achavam que eram bonecos, outros achavam que eram grandes poços e a maioria dizia que era uma grande bagunça, estavam todos errados. Não se analisa um bom castelo de areia por suas partes, mas pelo conjunto. Eram bagunçados, mal projetados e assustadoramente instáveis, mas eram meus castelos, e eu os adorava.
Como vencer o invencível medo de perder aquilo que é construído? Não é possível, mas continuar tentando é importante. Tentativa e erro são relevantes para que nos tornemos mais astutos, principalmente no que diz respeito ao social. Associando a metáfora de castelos de areia a relacionamentos pensemos o seguinte: você acabou de sair do seu terceiro namoro fracassado em menos de dois anos; game over – tentar outra vez? Sim, porque o melhor de nós também é o pior, e vice-versa. São as experiências ruins que posteriormente nos encaminham para as boas; a vida é um ciclo.
Ascender é belo e decair é preciso.
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