Mostrando postagens com marcador Realismo. Mostrar todas as postagens

17 de julho de 2015

Cheia de si - Implodiu


Você começa a perceber que a sua rebeldia não te torna mais tão legal. Você nada contra a maré, mas ninguém tem olhos para você, todos estão ocupados demais vendo algum pinguim morto à beira da praia, duas mortes: a do pinguim e a sua, afinal sem a devida atenção você não vive.

Ninguém mais liga para você, a sua rebeldia e os seus meios de praticá-la são tão previsíveis que decidimos chamar de rotina e te esquecemos num canto, talvez por isso se ressinta, não sei, quando se trata de você nós nunca temos certeza de nada.

Eu sei que você acredita ser genial, revolucionária, portadora de um frescor criativo, mas não deveria. Eu tive que ser realista. Tive que lhe mostrar que as coisas não são tão boas quanto você pensa. Se dependesse de mim teria sido mais doce na fala, mas o discurso não foi meu; naquele momento a minha voz foi o eco do mundo, talvez por isso você se ressinta de mim, porque eu fui o portador das más notícias.

Os garotos que você acredita estarem aos seus pés: metade deles não sabe o seu nome e a outra já tem namoradas (sem contar os que tem namorados). Você não tem se saído tão bem nos testes, mas ainda assim se diz a melhor de todas, eu lhe provo o contrário.

Neste momento você me odeia e me ataca com confissões de fim de dia: “Você não consegue namorar ninguém, todos foram embora, todos te deixaram, você não tem sido nada além de um caso por uma noite”. Ela não mente, é tudo verdade, mas quem é verdadeiramente solitária é a própria agressora – sedenta por atenção, hoje rasteja nos vestígios de quem já foi e daqueles que lhe emprestaram luz para que esta pudesse refletir.

Ela é um sol poente que me entristece demais. No geral gosto de pores do sol, mas esse me entristece profundamente.

Você chegou aqui cedo demais. Aqui nós esmagamos aqueles que nos necessitam; pulverizamos sonhos e obliteramos corações. Você deveria ter pego o próximo ônibus ou parado para tomar um sorvete, tudo para que não chegasse a tempo de não nos conhecer, mas chegou.

29 de março de 2015

Como eu me Apaixonei por Edward Hopper

Apesar de não ser bom desenhista ou pintor sempre tive fascínio pelas artes, desde muito cedo. Sempre gostei daqueles artistas complexos, densos, que pintavam flores azuis representando a melancolia, cetros para representar a centralização do poder e coisas do tipo. Todos estes simbolismos eram magnéticos para mim, queria descobrir o significado de cada um deles, ficava impressionado em saber que o garfo na mesa da moça sem rosto tinha algum significado.

Certo dia estava respondendo atividades do livro de filosofia e me deparo com a pintura do começo da postagem ("New York Movie", 1939) seguida do comando:


"Interprete a alegoria da caverna de Platão pensando no cinema como projeção das sombras do mundo real."

Para os que desconhecem a tal alegoria da caverna é o seguinte: Platão constrói um diálogo entre Sócrates e Glauco, um de seus discípulos no qual Platão pede a Glauco que imagine uma caverna na qual homens estão acorrentados desde suas infâncias e a única coisa que veem são as sombras de fantoches projetadas graças a uma fogueira, e tais objetos são manipulados por homens que passam do lado de fora da caverna.
Logo em seguida Sócrates comanda ao discípulo que considere um prisioneiro que conseguiu escapar de suas correntes. Após superar diversos obstáculos o homem sai da caverna e instantaneamente é cegado pela luz do sol, porém gradativamente recupera sua visão começa a contemplar as maravilhas do mundo, a realidade além da caverna. Sócrates vai além e supõe que se o homem voltasse, libertasse seus companheiros e falasse do mundo além da caverna, seria tido como louco e provavelmente morto.
Após responder esta questão fiquei impressionado com o quão profundo era este artista, e resolvi pesquisar mais. Vi nas pinturas de Hopper o meu estilo de escrita e alguns dos meus temas, assim como eu ele é bem detalhista, suas pinturas não distam do real, não usa cores ou formas fantásticas, o incomum de suas pinturas está nas situações, e não nas formas. A solidão, a melancolia, a ascendente economia americana, o saudosismo, são temáticas evocadas em suas pinturas, extremamente tocantes, eu me sensibilizei muito com as obras que encontrei, sinto uma espécie de empatia pelo artista, acho que compartilhamos de algumas impressões, nunca saberei.
"Morning Sun"



Uma cama vazia e uma grande janela para montanhas de concreto. Sim, a cidade pode ser cruel com os solitários. Encaro o amanhecer com a minha própria sombra como única companhia, um olhar desacreditado para o céu a clarear, mais um dia, sozinha.

Sozinha. A vitrine ao meu fundo denuncia, ninguém ficou, ninguém perguntou se eu precisava de algo mais, se eu realmente queria estar ali, sozinha, serviram-me e foram embora. O aquecedor começa a falhar, meu café tem pouco açúcar, não vejo a atendente, permanecerá amargo, tomarei antes que esfrie e depois seguirei pela noite gélida, sozinha.

Estas são as minhas duas pinturas favoritas, escrevi estes dois pequenos parágrafos com o que acho que estão pensando, ou o que pensaria no lugar delas.
O único elemento que notei em quase todas as pinturas é a cidade, os personagens, as situações são urbanas, e para mim a cidade é doente. Pouco comento, mas não suporto viver a cidade, mas ao mesmo tempo sinto que não conseguiria deixá-la, seria esta uma síndrome moderna? Não sei ao certo, mas tenho certeza de que o ambiente urbano tem me enfraquecido, me deixado doente, em diversos aspectos, e nas pinturas de Hopper acho uma espécie de conforto, acabo me sentindo representado. É bom saber que alguém sente a solidão, a melancolia que exala das cidades e não tenta negar, dizer que as coisas estão bem, que são boas, porque elas não são/estão.
Definitivamente penduraria dezenas de pinturas de Hopper em minhas paredes, não pensaria duas vezes, não escolheria tanto, apenas penduraria, seriam a minha fuga desta selva de concreto.
Tecnologia do Blogger.

Seguimores