2 de janeiro de 2015

Sobre Posia e Memória

Poetas são privilegiados por sua sensibilidade, por sua percepção aguçada sobre o mundo e sobre as pessoas, poetas conseguem enxergar o melhor e o pior de tudo e talvez por isso amem demais e também sofram demais.
O poeta quer apagar a dor de seu coração partido e a dor dos abusos que sofre do mundo, talvez por isso fala constantemente de abandonar sua memória, citando um dos versos de Drummond "Pôr fogo em tudo inclusive em mim", mas o que acontece quando nós é que somos abandonados pela memória?
Recentemente acompanhei o declínio de um de meus familiares, mais precisamente a minha avó paterna, que não era uma poeta, intelectual, nem nada do tipo, nunca desejou que sua memória a abandonasse apenas pelo requinte de abrandar a dor, e em toda a sua sabedoria já conhecia o que os pretensiosos poetas desconhecem, a memória forma-se somente quando há dor, quando não há descaracteriza-se como memória, mas mesmo tanta sabedoria não lhe impediu de esquecer.
O problema do poeta é que ele é desrespeitoso, alguns disfarçam bem, mas ainda são os poetas majoritariamente desrespeitosos, e por o serem não conseguem respeitar nada que os faça mal, que os machuque, respeitam a força, mas não as negativas, e por isso não entendem seu valor. A dor e o erro vêm para nos fazer compreender melhor as coisas, a vida, incrustam-se na memória para que nunca esqueçamos do certo, do que se deve fazer para que não haja mais dor e sofrimento, a dor e sua subsequente memória são males necessários. 
Àqueles que continuam descrentes no que falo, peço-lhes que pensem na beleza dos verões obliterando-se nas profundezas de nossas mentes, nos amores notívagos, na juventude faiscante, pensem em tudo que lhes faz sentir saudosistas, que lhe faz sorrir apenas em lembrar, pensem em como é triste a beleza poente da memória.
À minha avó espero que descanse em paz, e que como consolo tenha o legado que deixa, filhos, netos, pessoas que honram sua memória, sua existência apenas lembrando dela de forma carinhosa, sentindo saudade e ficando tristes o mínimo possível, e para os que leem este texto peço-lhes que honrem suas memórias, aceitem-nas por completo, boas e ruins, a única coisa que deixaremos neste mundo são os nossos feitos, a imoral e imortal memória.

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