30 de agosto de 2015

Homens ao Mar

Eu espero, paciente; no porto da vida sou o pescador velho dentre as lanchas e balsas. Peixes e vinagre balsâmico, sol, maresia, melancolia dominical – Não retornou; acho que não retornará.
A madeira puída sob mim sustenta o cais e me faz lembrar de você. Lembro-me de quando nos conhecemos pela primeira vez, nesta mesma zona portuária, eu fingia ler a sorte dos marujos, lhes dizia que as coisas ficariam bem e que suas mulheres esperariam por eles, mentiras marítimas; ninguém além de mim espera, as pessoas movem e transformam-se; pensando bem até eu devo ter me transformado, neste mormaço diário do meu excruciante exercício parte de mim secou, a outra reduziu.
Morrer na praia. Sereias nadam na areia – estéreis, lagostins degolam tainhas e peixes barrigudinhos nadam livres.
É complicado ser pescador e ser fisgado. Não gosto de anzóis, pelo menos não na minha garganta. Não és eternamente responsável pelo que cativas, nenhum dos teus antecessores foi, porque cobraria isto de você logo agora?
Olhos vidrados na linha do horizonte, vejo um barco, distante, enferrujado, lento, mas é um barco. Alguns minutos depois e já posso enxergar você dentro dele; não sinto borboletas no estômago, talvez lagartas, mas definitivamente não são borboletas. Eu acreditava estar aqui te esperando, mas quando te vi resplandecer ao pôr do sol quis ir embora, fisgaram a isca e a vara balançava enquanto você se aproximava, mas eu precisava ir.
Deixo uma presa libertar-se, pego o meu balde de iscas, a minha vara de bambu e levanto. Neste momento o barco está próximo, fazemos um desconforto visual, aquele de dois estranhos apegados. Antes ligados pelo fantástico tempo agora nos separamos pelo físico. Sugiro que não desembarque para retornar para mim, porque já não há mais eu para você retornar.

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