Homens ao Mar
A madeira puída sob mim sustenta o
cais e me faz lembrar de você. Lembro-me de quando nos conhecemos pela primeira
vez, nesta mesma zona portuária, eu fingia ler a sorte dos marujos, lhes dizia
que as coisas ficariam bem e que suas mulheres esperariam por eles, mentiras
marítimas; ninguém além de mim espera, as pessoas movem e transformam-se;
pensando bem até eu devo ter me transformado, neste mormaço diário do meu
excruciante exercício parte de mim secou, a outra reduziu.
Morrer na praia. Sereias nadam na
areia – estéreis, lagostins degolam tainhas e peixes barrigudinhos nadam
livres.
É complicado ser pescador e ser
fisgado. Não gosto de anzóis, pelo menos não na minha garganta. Não és
eternamente responsável pelo que cativas, nenhum dos teus antecessores foi,
porque cobraria isto de você logo agora?
Olhos vidrados na linha do horizonte,
vejo um barco, distante, enferrujado, lento, mas é um barco. Alguns minutos
depois e já posso enxergar você dentro dele; não sinto borboletas no estômago,
talvez lagartas, mas definitivamente não são borboletas. Eu acreditava estar
aqui te esperando, mas quando te vi resplandecer ao pôr do sol quis ir embora,
fisgaram a isca e a vara balançava enquanto você se aproximava, mas eu
precisava ir.
Deixo uma presa libertar-se, pego
o meu balde de iscas, a minha vara de bambu e levanto. Neste momento o barco
está próximo, fazemos um desconforto visual, aquele de dois estranhos apegados.
Antes ligados pelo fantástico tempo agora nos separamos pelo físico. Sugiro que
não desembarque para retornar para mim, porque já não há mais eu para você
retornar.


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