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8 de março de 2016

Sobre o Ruir





Os meus amigos de anos atrás
desapareceram em si mesmos;
por detrás de um choque anafilático
por detrás do estresse pós-traumático 
a solidão residual.

Os amigos que seguiram a maré.
Que consultaram cartomantes cegas --
obtendo consenso na maioria das respostas:
"o futuro é uma ilusão, lidem com o agora".
E que choraram, correndo
para um horizonte de expectativas,
sonhando com o amanhã que nunca chega,
protelando suas tarefas,
recitando Anna Akhmatova e expondo
a crueldade do mundo.

Os meus amigos que vomitaram nanquim 
em folhas de papel sulfite e escreveram
os mais belos poemas da face da terra.
Os meus amigos de pernas tortas e
sorrisos largos que sentaram-se em 
cadeiras acolchoadas e velaram seus sonhos
em cursinhos pré-vestibular.
Os meus amigos que para sobreviver ao
naufrágio abandonaram a esperança.

Os amigos que eu amava abertamente.
As minhas grandes paixões.
Desapareceram em si mesmos.
Sem deixar rastros.
Na calada da noite.
Num assobio melancólico
que ecoou até o amanhecer.

15 de janeiro de 2016

Corpos Cadentes

Dia nublado. Luz do sol corta uma cortina de nuvens por uma fresta tímida e toca o meu rosto suavemente; quem será que tenta me alcançar? Que está na luz do sol? 
Caminho pelo cais, instável - a maré encheu subitamente. Um vestido vermelho emerge ao longe - hoje até chove, em tributo ou lamento, mas chove.
O dia acinzentado torna-se fúnebre. Toda a cidade parou para marchar juntamente à melancolia pela justiça. A estrada de tijolos amarelos foi sedimentada pelo verbo - talvez quem fala demais não vá a Roma, mas chega em algum lugar; e afinal, não é isto que importa? Não, você não está mais no Kansas, encare a realidade.
Anna Akhmatova escreveu que "bebe para o fato de que o mundo é brutal e cruel", bem eu não quero acreditar, mas hoje ela até que me convence. O "hoje" é um lugar incômodo, é uma passagem do tempo onde sinto asco - onde o meu coração se partiu quando uma mulher foi taxada de aberração e desovada na solidão. 
Caminhamos juntos para o cemitério. Caminhamos juntos, ressentidos de nós mesmos pela apatia. "Se pudéssemos voltar  no tempo teríamos feito alguma coisa" - amanhã é tarde demais, hoje ainda parece muito cedo, como lidar? Desculpas, para onde quer que você vá é tudo que encontramos. Ainda é de manhã, eu me alimento de mentiras.
"O meu filho não queria matar essa coisa, a culpa é dele por querer ir contra Deus", "Não é culpa do menino, essa aberração provocou ele", "Aqui não tem essa, ou é um ou é outro, não muda não."
Eu realmente sinto nojo. Nojo das pessoas que tentam me fazer soar como revolucionário descabido e naturalizar todo o absurdo que se passou. Desde quando não atacar a identidade das pessoas e dar-lhes paz é ser revolucionário?
Um corpo que cai. Nesta cidade nascemos no cinto e morremos nele. Quem ousa se livrar das amarras morre por elas, e não nelas.
Me aproximo de um caixão úmido rodeado dos últimos que conseguem ter seus corações partidos pela injustiça. "Beatriz", este é o nome que estava na luz do sol em meu rosto mais cedo. Este é o nome da dona do vestido vermelho. Eu chorei pela minha alma, eu chorei pela alma de Beatriz, eu chorei pela alma do mundo.
Eu me sento numa calçada qualquer e tento digerir aquela situação. Todos os anos milhares de corpos caem. Corpos a mercê de si mesmos. Eu me sinto mal, acho que só isso que me resta, o dissabor da injustiça. Eu não sei por quem os sinos dobram, só sei que não é por nós, não é por elas. Milhares de corpos que caem, ninguém parece se importar, ninguém parece se entristecer, os dias se põem, até eu me pus em melancolia - ninguém parece se importar.

19 de junho de 2015

Eu Bebo Para a Nossa Casa em Ruínas

Então, tenho lido bastante poesia, com um certo foco na russa. Não faço segredo sobre a admiração que tenho sobre escritores como Nabokov, sempre achei a cultura russa muito subestimada. Pesquisei bastante sobre Rússia (culturalmente), e numa dessas buscas me deparo com a escritora Anna Akhmatova (А́нна Андре́евна Горе́нко, para os íntimos).
Anna passou pelos horrores perseguição stalinista; apesar de nunca ter sido presa ou exilada teve dois de seus maridos executados e um de seus filhos preso por mai de dez anos.
Toda a dor, o sofrimento são refletidos claramente em sua poesia, aliás esse é um de seus maiores elogios, a linguagem clara e direta, a dor não é diluída em metáforas, é servida diretamente ao leitor.


O Último Brinde


Eu bebo para a nossa casa em ruínas.
Para a dor da minha vida.
Para a nossa solidão juntos.

E para você eu ergo meu copo.
Para lábios mentirosos que nos traíram.
Para olhos frígidos e impiedosos.

E para a  dura realidade; de que o mundo é brutal e grosseiro
Que Deus, na verdade, não nos salvou.
Anna Akhmatova
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