Floral
Sobre gramíneas. Narciso deita-se na relva e acompanha o movimento das nuvens, que eram poucas e rapidamente sumiam na imensidão do céu veranil.
Avista próximo um lago, segue em sua direção arrastando-se lentamente como um caracol num dia quente, vagando despretensiosamente por um galho. Conforme aproxima-se do lago a grama que bate em seu rosto encurta, e em pouco tempo a visão do verde é substituída por um límpido espelho d’água, mas Narciso não busca o seu reflexo, mas sim o céu e o frescor das águas do dezembro sul-americano.
Narciso submerge a parte inferior de sua cabeça no lago, os cabelos flutuam, adentra mais um pouco as águas translúcidas e deixa o corpo boiar.
Ouve galhos quebrando e assusta-se, perde o equilíbrio e afunda, mas rapidamente emerge, curioso, afinal acreditava estar sozinho.
Narciso sai do lago e segue em direção à origem do barulho, atrás de uma árvore, anda devagar, mas não por medo, apenas estava cansado de vagar o dia inteiro por aí, sem algum propósito.
O jovem Narciso admira-se ao descobrir a origem do barulho, uma mulher de cabelos brancos, platinados, brilhantes, e rosto efêmero, a cada olhar de Narciso o rosto dela mudava, às vezes jovem, outras velha ou até meia idade. Tinha olhos marcantes, mas ainda assim vazios, fitava o lago com melancolia, um ar saudosista, de que perdera algum que nunca mais voltaria a ser o que foi.
As flores concentravam-se ao seu redor e os galhos a protegiam, uma rainha muda de reino barulhento, à sua maneira. A mulher desvia o seu olhar com se tivesse saído de um transe, olha para Narciso e o pergunta:
- Quem és tu? – E toca os cabelos a espera de uma resposta.
- Eu sou Narciso, moro aqui perto, e você?
- Você não me respondeu, quem és tu? – Insiste a mulher.
- Sou Narciso, não sou outro alguém, ou coisa...
- Quem disse que você é coisa?
- Não sei, pensei em ser objeto, em ser coisa, e fui um pouquinho, ou pensei ser, talvez tenha realmente sido, mas não me lembro...
- Tão jovem para lembrar... – Murmurou a mulher...
- Mas quem é você? Você aparece do nada com um monte de enigmas e perguntas mas não sei nada sobre você...
- Eu sou.
- É o que?
- Sou e ponto, não preciso me afirmar.
- E por que eu preciso?
- Porque me permitiu lhe questionar.
- Como eu posso saber quem eu sou? O que eu sou?
- Você não sabe, a gente nunca sabe, mas somos e ponto, nada de parágrafos, apenas finais.
Narciso expressa confusão, a mulher esboça um sorriso sutil e continua:
- Eu tenho te visto passar os últimos dias aqui, calmo, sem preocupações. Neste caminho você não vai a lugar algum, o tempo em que você quer viver não existe mais, é apenas memória. Chegou a hora de amadurecer, de crescer, de endurecer e tentar não perder a ternura por mais difícil que lhe possa parecer. Você precisa abandonar a segurança do ridículo, tem que permitir ao mundo que ele lhe machuque...
- Mas eu não quero que o mundo me machuque... – Diz Narciso, já fragilizado.
- Mas ele vai! Mais cedo ou mais tarde ele vai e não há nada a fazer a não ser se preparar.
A mulher aparenta estar um tanto quanto angustiada, olha para o céu, respira e continua:
- Você não tem escolha Narciso, a vida não é feita só de flores, rios e chocolates.
Quem é você? – Indaga choroso e aborrecido.
A mulher fica em silêncio por algum tempo e em seguida responde:
- Eu sou um tempo, não o abrangente tempo, mas um tempo específico, e neste momento eu sou o tempo de você crescer...
Narciso ajoelha no chão inconsolável, não sabe ao certo porque chora, mas sente que precisa fazê-lo, soluça enquanto sente a sua própria mortalidade, a sua desconexão com a natureza, com os rios ancestrais. Toca a água, a grama, as flores, tudo o que se pode sentir saudade é saudado, melancólico, Narciso procura a mulher mas esta já havia sumido junto com as flores e galhos que a cercavam, era mais do que claro que precisava ir embora.
Nota: A imagem utilizada como capa foi uma edição da obra "Vines" da artista Chloe Marsters, você pode conferir seu tumblr clicando aqui e a obra "Vines" completa e sem edição aqui.
Nota: A imagem utilizada como capa foi uma edição da obra "Vines" da artista Chloe Marsters, você pode conferir seu tumblr clicando aqui e a obra "Vines" completa e sem edição aqui.


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