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8 de fevereiro de 2018

Correspondente II


Continuo recebendo suas mensagens urgentes através de sonho. 
Confesso que não as compreendo muito bem -- sendo que, às 
vezes, mal entendo que são suas mensagens e não de outrem.

Vai ver não era para eu estar aqui -- penso logo quando
acordo pela manhã, sentido-me imensamente culpado.

Invasor dos sonhos dos outros, interceptando mediunicamente
as urgências alheias: 
                                            "eu sonhei que mastigava um caranguejo
                                            inteiro com casca e a minha garganta não
                                            parava de chorar toda vez que eu abria a
                                        boca para falar e arranhava o ar." Que loucura!

A aranha arranha a rã. A rã arranha a aranha.
Nem a aranha arranha a rã. Nem a rã arranha a aranha.

Masturbação mental. Frete seco.

"Você já sonhou com este homem?" - Me pergunta.

                            "Com qual homem eu não sonhei, meu querido?" - Respondo.
                            "O sonho é o desejo abissal." - Lhe segredo.

Ainda que você queira fazer das tripas coração e pular corda contando
desafetos, eu não lhe deixo cair em tentação.

Dois olhos atentos ausentes da magnanimidade do mundo à sua frente.

Ensimesmamento.

Eu sonho em entrar pelo cano e sair de mim.

Sinto que você ainda não disse tudo.

Na verdade, pensando bem, você 
                                                       não me disse absolutamente nada.

Já disse: 
               apesar de receptáculo onírico não sou iniciado em suas linguagens,
                                               somente em seus segredos.


                  Uma dica: se você olhar para trás dá tudo errado, vira tudo areia.

                                  "Mas eu preciso dar um recado ao passado."


                                                   Então feche os olhos.



arte::: vi aqui.


28 de dezembro de 2016

Correspondente


me mandou ainda ontem,
através de sonho, carta
ultragentil, com os seguintes
dizeres: "sou para ti o riso
frouxo e os beijos roubados
e o arco-íris que se agarra
às suas coxas nas tardes que
passa debruçado no batente
da varanda"

sorriso brando entre o vidro
e o sol na sombra do mais
sincero bem-querer

flores brancas no meu quintal
brotam de manjericões
esturricados pelo estar-aqui

há esperança nos dias de sol.

tempo parado debaixo
dos seus lençóis anos
atrás. vertiginoso sonho
de um coração que se
enforca ao buscar as
suas inatingíveis sombras;

muito distante das mãos
e de mim também. aquém
de meus excessos - mas
nunca dos seus - reacendo
agora a chama do tempo,
flutuando juntamente
às lesmas surfando
a grama do meu quintal

o sal dos dias é não esquecer.


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