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8 de fevereiro de 2018

Correspondente II


Continuo recebendo suas mensagens urgentes através de sonho. 
Confesso que não as compreendo muito bem -- sendo que, às 
vezes, mal entendo que são suas mensagens e não de outrem.

Vai ver não era para eu estar aqui -- penso logo quando
acordo pela manhã, sentido-me imensamente culpado.

Invasor dos sonhos dos outros, interceptando mediunicamente
as urgências alheias: 
                                            "eu sonhei que mastigava um caranguejo
                                            inteiro com casca e a minha garganta não
                                            parava de chorar toda vez que eu abria a
                                        boca para falar e arranhava o ar." Que loucura!

A aranha arranha a rã. A rã arranha a aranha.
Nem a aranha arranha a rã. Nem a rã arranha a aranha.

Masturbação mental. Frete seco.

"Você já sonhou com este homem?" - Me pergunta.

                            "Com qual homem eu não sonhei, meu querido?" - Respondo.
                            "O sonho é o desejo abissal." - Lhe segredo.

Ainda que você queira fazer das tripas coração e pular corda contando
desafetos, eu não lhe deixo cair em tentação.

Dois olhos atentos ausentes da magnanimidade do mundo à sua frente.

Ensimesmamento.

Eu sonho em entrar pelo cano e sair de mim.

Sinto que você ainda não disse tudo.

Na verdade, pensando bem, você 
                                                       não me disse absolutamente nada.

Já disse: 
               apesar de receptáculo onírico não sou iniciado em suas linguagens,
                                               somente em seus segredos.


                  Uma dica: se você olhar para trás dá tudo errado, vira tudo areia.

                                  "Mas eu preciso dar um recado ao passado."


                                                   Então feche os olhos.



arte::: vi aqui.


24 de dezembro de 2017

Da Compreensão


Espreitando a coragem, olha de soslaio e recua. Respira fundo, lhe falta ar no último segundo que inspira; boceja. Baixa os olhos, como que olha para dentro de si e volta, e diz:
"Agora que você é um pouco mais velho e eu sou um pouco mais velho, acho que deveríamos conversar."
E as palavras vão se avolumando na garganta, disformes, até que pós-verbais, escorrem pelo rosto, exaustas. Respira novamente, agora ainda mais fundo. Falta um cigarro.

- O que eu tenho pra falar é difícil demais de se dizer -- É resoluto no que diz, ainda que omita, por dentro, verdades não decodificadas, em palavras, por ele mesmo.
- Vai ver você não precise dizer. -- Ele o responde, numa espécie de candura amornada.
- Mas você entende o que eu quero dizer? 
- Não, mas tá aí: vai ver eu não precise. -- Ele diz com a preguiça enraivecida de quem se vê obrigado a se repetir.

Suas Vontades zombam dele com mais frequência do que gostaria. Queria falar que ama, mesmo passadas mágoas, soluços e coisas não-ditas. Mas não consegue. Se prostra ante suas Vontades, ante seus sentimentos-gente-cruel, e paralisa com a cabeça colada ao chão, emudecido.
Ele dá um sorriso a seu ouvinte revestido de ternura, feliz por não precisar falar -- já falando absolutamente tudo o que é preciso. 

Ao fundo da mente: o desejo de ir a praia e sussurrar segredos à maré com metade do rosto afogada e de fora d'água somente dois olhos frios sob o sol quente.


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