1 de setembro de 2015

Setembro

Resolvi chamar de setembro o lugar ao qual me convenci de que não pertenço.
Talvez seja só o cansaço – quando fico cansado sou invadido por um ceticismo imbatível – mas me convenci disso. Já dormi várias vezes depois que adotei tal rótulo para setembro, que por mim já foi analisado e descontruído antes mesmo de ser setembro.
Setembro não me pertence, jamais pertencerá. – Como ser um estranho ao momento? Como aceitar o que a gente não gosta de aceitar? Aquilo que não satisfaz a alma, mas é, irremediavelmente, verdade.
Hoje é setembro, brindamos o que desconhecemos ou nos recusamos a pertencer. Engolimos os semelhantes estranhos a nós e vomitamos apatia. Brinde, e à mesa, com guardanapo no colo, ria daquilo que não te diverte e engula a ceia que te causa náusea.
Os olhos marejam, não ouse chorar na frente das estrelas; aqui melancolia é afrodisíaco – chuparão de seus olhos o doce gosto da solidão.
Eu bebo para os meus contemporâneos dilacerados pelo passar dos anos. Aos poucos nos separamos, quando me dei por conta éramos só setembro e eu. Como lidar com as faces deste mês? Efêmero, inconstante, superficial, sufocante e cruel. Eu tenho medo de pertencer a setembro porque já pertenço a alguém que não tem nome.
E nós, os sem-nome da virada do ano, somos aqueles que fazem as coisas acontecerem. Nós somos a vanguarda depois das vanguardas, os autores de músicas imaginárias com instrumentais inexistentes. Eu finalmente achei o meu povo, e ele não tem nome, somos estranhos ao eixo janeiro – dezembro e isso me causa uma alegria imensurável.
Não olhe para os lados ao andar com os sem-nome, não é norma, mas ficamos tão ocupados ao longo do dia que os outros raramente nos preocupam; a gente escreve, canta, compõe, problematiza e analisa o mundo, o de fora e o interno.
Eu não pertenço a setembro; me sinto feliz, sorrio por amor e não por norma, minhas lágrimas não são romantizadas ou exotificadas aqui, existir num lugar que te absorve como estranho e esfolia a sua personalidade ríspida é revolucionário, durmo bem – longe de setembro, de suas paranoias e agonias respiro o ar puro de existir perto de quem amo, alguém que já se tornou um segundo lar para mim. Finco as raízes no futuro e me afasto de todos estes ruídos urbanos.
Em suma: não são bons sujeitos, os tais do setembro, pelo menos não me preenchem, pelo contrário, aumentam o meu vazio.


Minha reação quando setembro acabar.

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