2 de junho de 2015

Diálogos - Amanda

Neste episódio de "Diálogos": Amanda, uma complexa mulher que busca amor, liberdade e felicidade em seus múltiplos parceiros e em suas múltiplas personalidades. Uma eterna atormentada pelo choque entre o seu mundo idealizado, a vasta imensidão de sua mente, com a rispidez do mundo real. Afinal, há uma grande diferença com o que se sonha e o que realmente existe, não é mesmo?

- Até quando, Amanda? Até quando você vai deixar que eles continuem te machucando?
- Mas Dante, eles não me machucam...Eles me ajudam a viver.
- Não te machucam? Você chega em casa, de madrugada, alcoolizada, desgrenhada e ocasionalmente aos prantos, uma pessoa dessas não lhe parece machucada?
- Não!
- Não?
- Não! Me parece livre.
- Livre do que?
- O mais apropriado seria perguntar de quem.
- Tá bom, de quem?
- Da minha geração, que me fez uma patinha feia, que me excluiu.
- Te excluiu de que?
- Deles, do conjunto. Eu transito entre diferentes esferas. Tão fluída quanto a minha sexualidade é a minha personalidade.
- Eu acho que você só está tentando se adaptar...
- E daí se eu estiver? Você não sabe o que é passar pelo que eu faço. Te deram um rótulo e te alienaram de você mesmo. O seu silêncio consolidou uma identidade artificial.
- Você está me chamando de artificial?
- Não, estou dizendo que as pessoas memorizaram a pessoa que acreditam que você seja e não quem você verdadeiramente é. Consequentemente você se esqueceu de quem é, acreditou cegamente neles.
- E o que isso tem a ver com você?
- Tudo.
- Explique-se.
- Eu não aceitei quando me disseram que eu não servia pra eles, pelo contrário, fiz com que não servissem para mim. Fugi para pastos mais verdes.
- Estes pastos mais verdes são os homens mais velhos que vêm te buscar de noite?
- Ás vezes...Outras vezes eles são eu mesma.
- Como assim você mesma?
- Eu sou muitas pessoas...Não simultaneamente, eu sou cada uma delas por vez...
- Isso não é uma doença?
- Talvez, tudo é doença hoje em dia...
- Mas você não é normal!
- Defina normal.
- Seguir o curso da vida, Amanda! Conhecer um bom homem, casar, ter filhos, levar uma vida direita.
- O seu conceito de normalidade é patético. Você acha que a minha felicidade virá através de um homem? Talvez com vários deles, mas com um? Definitivamente não.
- Você é minha irmã...Eu me preocupo com você, não te quero por aí, com esses velhos por madrugada adentro.
- Dante, eu entendo que você se preocupe, mas caso não tenha percebido; você não tem querer em relação à minha vida.
- O que estes homens te dão para que você não largue deles?
- Admiração. Eu quero ser devorada com os olhos, quero o meu ego alimentado, estufado. Quero sejam vorazes por mim, e em troca eu sou voraz por eles.
- Será que você não tem um pingo de vergonha, Amanda?
- Eu já tive muita vergonha, irmão. Porque a vergonha me foi ensinada, me ensinaram a ter vergonha do meu corpo, dos meus desejos, da minha personalidade. Você cresceu livre e vem querer me falar de vergonha? Eu me tornei tão volátil, tão vulgar quanto você, o que para os homens parece normal, para as mulheres é uma aberração comportamental. É por isso que você está tão "preocupado".
- Eu sei, Amanda, que você não é tão corajosa, grandiosa como finge ser. No fundo você é insegura e frágil, tanto ou até mais do que eu.
- Eu sou frágil. Porém, achei nos homens mais velhos, nos homens que me desejavam uma forma de estar no controle da situação, e o poder, mesmo que seja de si mesma, é altamente viciante.
- Mas Aman...
- Me desculpe, Dante, mas a minha carona chegou...Eu acho que teremos que deixar está conversa para depois.
- Depois quando?
Amanda dá as costas e sai pela porta de entrada, batendo-a ao sair. Dante se aproxima da janela e abre as cortinas, do lado de fora um homem, lá pelos seus quarenta anos, espera Amanda, ela o cumprimenta com um beijo, dá a volta no carro e senta-se no assento dianteiro. O homem entra no carro e eles saem, naquele sentido iam provavelmente em direção ao centro ou até a orla. Dante nunca saberia, ele nunca soube, de nada.

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