Crônica do Amor Profundo
A aula havia acabado e as ruas estavam vazias. Fui até a
padaria, estive em jejum durante a manhã inteira, a cantina não abriu e eu não
tive tempo de sair. Comprei um lanche qualquer, e já estava de saída, quando
uma amiga e um garoto da minha sala, com quem não costumava conversar, me
chamaram para sentar junto com eles, aceitei.
Eles estavam conversando a respeito de uma história que o
garoto havia planejado. Me interesso pela história e começamos a conversar
sobre nossos escritos. Depois de pouco tempo de conversa eu saco o meu caderno
e lhe mostro uma de minhas histórias, ele para ler e paralelamente eu e a minha
amiga começamos a conversar sobre miudezas.
Ele termina de ler, a conversa flui. Falamos de astrologia e
logo depois ele começa a falar de um menino por quem havia se apaixonado
perdidamente, em suas próprias palavras, alguém que ele deseja como nunca
desejou ninguém. Coincidentemente, ou não, eu havia ajudado este garoto com a
leitura de seu mapa astral então nós conversamos sobre personalidade, sonhos,
aspirações...Apesar de relativamente breve, foi uma conversa produtiva.
O garoto se queixa de seu amado, me diz que ele não lhe dá
atenção, que está com todos ao mesmo tempo e simultaneamente parece tão só, tão
desolado. Se queixa de sua imprevisibilidade e de seu descaso com os indivíduos
desproporcional ao seu cuidado com os grupos. Não lhe contei na hora, mas
compartilho das mesmas impressões. É como se ele amasse grupos, e por estar
constantemente apaixonado por seus grupos não consegue dar tamanha atenção a
indivíduos.
Entretanto, naquele momento me posicionei como ouvinte,
porque senti que ele precisava ser ouvido, e não aconselhado.
Voltei para casa refletindo sobre como é se apaixonar por alguém
assim, ou totalmente desenvolvido para os grupos ou para si mesmo. Conclui que
ambos são horríveis.
Para reflexões eu costumo me usar como exemplo, afinal eu
sou a pessoa que melhor conheço. Gosto muito dos meus grupos, do palco, da
atenção e por isso dou tanta atenção a eles. Quando alguém me dá a atenção pela
qual sou sedento retribuo com surpreendente ternura e empatia. Quando me tratam
com descaso eu nunca mais olho em seus rostos (e não é mera metáfora, eu me
foco em um ponto do ambiente, qualquer um menos naqueles que eu marquei).
Eu quero me apaixonar, mas se for por alguém superficial,
multifocal, dispersa, dispenso. Não é uma questão de ego, mas preciso ser
venerado para venerar. Relações precisam de atenção e cuidado para serem
prósperas, até as mais catastróficas envolvem atenção, numa quantidade surpreendente.
Quando não há foco a relação nem começa, nasce e morre na imaginação.
Amor platônico. Algumas paixões assumi para mim mesmo,
outras confessei a amigos e o resto morreu em mim. Morremos nós dois, juntos
somente no fim.
Eu confesso a vocês que estou me apaixonando agora. É um
processo lento, mas frutífero e desta vez é recíproco. Desta vez eu decidi
ceder e confirmar que estava me apaixonando aos poucos, na vida a gente tem que
aprender a quebrar regras, principalmente as nossas. A regra que quebrei foi a
de sempre me colocar como objeto de contemplação e não como apreciador.
Eu sou um eterno romântico. Apesar de tudo, continuo torcendo para o
amor. Posso dizer que amor não existe, que amor é um nome diferente para pessoas
novas em nossas vidas, mas no fundo amo o amor e não poderia jamais negá-lo.
Apesar de que o que sinto agora é o começo de uma paixão, amor leva muito mais
tempo, amar exige sacrifício, é gradual e súbito, um dia a gente acorda e percebe
que não conseguiria viver sem aquela pessoa.
O amor é o desenvolvimento total do indivíduo para algo ou
alguém. Amamos grupos, pessoas, sentimentos, coisas, lugares, tempos. Não
existe normatividade no amor, ele existe de tantas maneiras e em tantas pessoas
diferentes, limitá-lo é um erro. Quem insiste em limitar o amor nunca amou de
verdade.


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