16 de maio de 2015

Cinquenta Anos Se Passaram, Ainda te Amo

Olho no espelho. Estou velha. Quarenta anos se passaram, talvez cinquenta, não me recordo. Faz tanto tempo desde que te vi, daquele jeito, unido a mim, mais eu do que mim mesma. Era maravilhoso aquele tempo, quando eu não tinha saudade das coisas das pessoas, ou dos sentimentos, quando eu não me sentia triste por odiar como as coisas mudaram e como eu não odiava a mim mesma por ter permitido que as coisas mudassem.
Lembro-me de quando mamãe falava "Eloísa, não se misture com estes garotos, eles são transgressores, são rebeldes sem causa", de fato, você era um rebelde sem causa, mas eu também era, então estávamos empatados no quesito rebeldia. Lembro-me da palavra "vagabunda" ter muito mais peso em mim do que em você, mas quando estávamos juntos sentia um equilíbrio. Sentia como se as coisas fosse ser fáceis, como se não seria difícil ser a garota que andava com os transgressores. Ser uma garota má nos anos sessenta tinha seu preço, mas violar o status quo ao teu lado era impagável.
Em um dado momento eu fugi. Soube que seria obrigada a casar, então fugi para ficar com você. Mas acho que viver com alguém que refletia a sua essência era assustador, então você também fugiu, de mim. Nunca mais amei.
Não me entenda mal. Não é como se eu não tivesse arranjado outros homens, arranjei (e muitos). Mas acho que jamais conseguiria amar alguém como amo a mim mesma, e é por isso que te amei tanto, e é por isso que você fugiu. Você e eu somos a mesma pessoa, não é como se fôssemos simultaneamente a mesma pessoa, mas somos a mesma pessoa separadamente. Confrontando a si mesma com pesar no coração, pesar que vem do simples fato de que ela nunca obterá uma resposta para suas infindáveis perguntas, e está consciente disso. Confronta a si mesma apenas por norma, por convenção.
Eu continuo perdidamente apaixonada por mim. Consequentemente por você. Mas mesmo assim não penso tanto de você. Hoje pensei, e senti que precisava desabafar. Precisava falar o quão custoso foi o egocentrismo em minha vida, em sua vida. Olhando para trás e logo depois para frente penso no que poderíamos ter nos tornado, em quem poderíamos ter sido. Desmorono. As minhas lágrimas molham o papel em que escrevo.
Lembro da época em que fugi, das coisas que tive que fazer, dos meios que arranjei para tentar sobreviver. Sobrevivi, vivendo uma sobrevida, com homens sufocantes, com noites asfixiantes, vivendo à mercê da penumbra, com o meu estilo de vida endossado apenas pelas ruas. Naquela época eu não pertenci a ninguém, nem a mim mesma, por isso considero o único período da minha vida em que fui verdadeiramente livre, ainda que miserável, fui livre, isso é fato.
Mas aí eu sosseguei. Adotei a persona da boa mãe, da boa mulher, o que me destruiu por completo. Não é como se não quisesse ter sido uma boa mulher, eu queria, mas do meu próprio jeito. Se fosse para ter sido boa do jeito deles eu preferia ter permanecido má, vil, maldita. Não faria tanta diferença, afinal você me amou como uma mulher grandiosa e terrível, mas de qualquer jeito você amou a si mesmo, e eu amei a mim, ambos amamos ao mal e nada além dele.
Cama bagunçada, janela aberta, ventania, amanhecer, cartas sem destinatário ou remetente. Ainda penso em você e sei que ainda pensa em mim. Peço que não tente se aproximar ou escrever. Em minha velhice percebi, eu não me suporto. Consequentemente não te suporto.
Apesar de te amar, apesar de me amar, não suporto os teus acessos de fúria, os meus narcisismos, a tua imprevisibilidade, os meus temores. Engana-se quem diz que relacionamentos entre iguais são monótonos. A similaridade foi a minha ruína. 
Estou eternamente apaixonada por você, por mim. Estou sempre sozinha, mas de certa forma acompanhada. Essa é a minha verdadeira maldição.

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