Matéria-Prima
Todos estão usando metal, mas eu ainda prefiro plástico. Metal oxida, plástico degrada. Uma diferença considerável? Nem tanto. Tudo é uma questão de preferências e especificidades. Se você procura beleza ou durabilidade ou conforto, tudo dependerá das tuas convenções, dos teus preconceitos. Tudo é relativo. Querendo ou não todos são metálicos, e eu permaneço plástico.
Não é como se tentasse ser diferente, original, eu gosto do plástico porque é irreverente, não se leva tão a sério. Metal é tão complexo, tão detalhado, tão precioso, e plástico... É plástico. Fica difícil se sentir metal, ser metal, cheirar como metal, quando todos se dedicam tanto a lhe convencer de que não é. Foi ficando difícil me convencer, acreditar em mim mesmo, até que decidi sucumbir, me tornei verdadeiramente plástico.
Me convenci de que deveria me importar com opiniões, sussurros, olhadelas, mas acho que é assim que somos oprimidos, com o medo. O medo do julgamento, das opiniões, tem me impedido de ser verdadeiramente eu, de ser algo além do plástico ou metal, de transcender.
Tenho tentado me corrigir. Mas como corrigir anos de alienação? Freud explica, eu não. Tenho feito de plástico, metal e de metal, plástico. Alguém me disse para me rebelar quando as coisas parassem de fazer sentido, que perturbasse o status quo. Rebeldia liberta e condena, mas costuma compensar.
Continuo sendo plástico, mas plástico transgressor, rebelde. Provavelmente ficarei bem.
PS: Acho que hoje estava me sentindo meio Clarice [Lispector], pensando melhor, todos os dias me sinto Clarice, alguns mais do que outros.


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