15 de abril de 2015

Adeus, Amor...

Voltou de sua caminhada matinal, colocou os tênis na lavanderia e ligou a televisão no noticiário. Coloca a água do café para ferver e vai até o quarto. Em cima da cama, malas, de todos os tipos, pequenas, grandes, amarelas, vermelhas, todas com roupas e fantasias, mal-arrumadas, malas de fuga, malas de pouco tempo, de sumir para nunca mais voltar. O banheiro estava trancado, em vinte anos de casamento foram poucas as ocasiões em que as portas estiveram trancadas, ele abre o guarda-roupa e contempla o vazio, o pequeno espaço reservado às suas roupas que antes era motivo de queixas agora reflete a sua solidão iminente.
A mulher sai do banheiro, com uma calça jeans e uma camiseta, o marido fica surpreso e pergunta num tom autoritário:
- Para onde você pensa que está indo? - A mulher lhe responde:
- Eu estou indo para longe de você, estou te deixando. - Falou com frieza, mexia no cabelo e encarava o relógio, aparentemente tinha que estar em outro lugar.
- E por quem você está me deixando? - Diz o homem à beira de um ataque de fúria, sua voz era frágil e violenta ao mesmo tempo.
- Eu estou te deixando por mim. - Neste momento dá uma longa pausa, havia recebido uma mensagem e precisava checá-la, saca o celular, lê e dá um sorriso, logo em seguida continua:
- Eu cansei de ficar a mercê... - Ela é rudemente interrompida pelo marido, histérico.
- Quem é que está te mandando mensagens? Com que vagabundo você está me traindo?
- Contenha-se. - A mulher diz enquanto ajeita a franja que cai sobre seu rosto.
- Como ia dizendo antes da sua interrupção, eu cansei de ficar a mercê da sua vontade, eu cansei de assistir o mesmo jornal, de tomar o mesmo café, de pedir as mesmas coisas nos restaurantes, o seu conservadorismo me cansou, e eu preciso ir embora.
- Você sempre foi tirada a revolucionária, mas no fundo eu sei que é tão apegada, tão resistente à mudança quando eu!
- Eu me acomodei, é diferente. Nós tivemos filhos, eu não queria criá-los num lar partido, Deus sabe o que você faria com as crianças se estivéssemos separados, mas agora já são adultos, não precisam mais do mesmo tipo de proteção.
- Eles precisam sim, precisam de nós, unidos, eles nos querem ver juntos, envelhecer juntos.
- Nós já somos velhos, envelhecemos juntos, no momento em que disse "sim" no altar eu envelheci décadas. - Fica um pouco nervosa, coloca mais algumas roupas na mala, fecha outras duas e continua:
- Nós somos de uma geração perdida, uma geração que objetificava, oprimia, que reduzia mulheres como eu a meros acessórios, fomos robôs do século XX. Eu fico maravilhada em saber que as mulheres de hoje podem mudar, podem ser o que quiserem sem precisar de homens, minha filha pode mudar, eu posso mudar.
- Ok... Então o que é que esse blá blá blá feminista tem a ver com nós dois?
- Você realmente não percebe? Você foi o primeiro que me enfiaram goela abaixo, e até que eu desenvolvesse uma voz, que eu pudesse gritar, era tarde de mais... - Uma longa pausa, novamente, fecha os olhos e os abre em meio a lágrimas. Com a voz levemente fragilizada continua:
- Eu decidi ir viajar, vou pra algum lugar que tenha praia, eu quero ver o mar sozinha, eu definitivamente não quero morrer ao seu lado, eu quero estar perto do mar quando acontecer, porque o mar é livre, transforma, é belo, tudo o que você tentou de impedir de ser durante todos estes anos.
Ela pega todos os seus pertences e suas malas, não pede ajuda e nem cogita voltar, leva tudo de uma vez e ainda bate a porta. Ele está em choque, vai até a sala, e subitamente lembra-se da água do café, chegou tarde demais, já não há mais água, tudo evaporou.

Desenho da postagem por: littleboo94

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