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5 de setembro de 2017

Das De(re)sistências



das poucas certezas que ainda me restam, 
do que em mim ainda é inteiro -

     porque 
   sou, quebrando pelos cantos, 
         carcomendo
              aos poucos, 
                  um alguém esmigalhado; 

caminhando em direção ao profundo
incompleto, sou grato -

eu 
abro mão.


em qualquer lugar do mundo - 

  porque eu 
  nasci para ser apátrida; quando eu tinha
           dezoito anos e fui me alistar no exército,
           o coronel viu meu desapego, das coisas 
           que há para se apegar, nos olhos, e me
                              dispensou - 

me sento, suspiro fundo e,
com o que eu imagino ser um choro
engasgado prestes a ser engolido,

eu me rendo,

apático - ou às vezes, porque
eu tenho gosto pelo drama, me rendo
e desabo.

dias longos. a gente senta e fantasia:
"qual o próximo plano? para onde vamos
agora?" - eu realmente não sei. às vezes eu passo um tempo sem saber.

deito, com os olhos meio mortos - porque eu desisto e morro um pouco - sem saber.

às vezes até choro,
querendo respostas, querendo tudo e, quando me é concedido um desejo (qualquer um mesmo), quero mais um tempo para poder pensar,
para me dar o poder da escolha e, no final, acabar com as mãos cheias de poeira 

- porque o tempo é voraz e o meu querer é, inversamente, uma fera mansa quando arreganha a boca para se satisfazer.

das poucas coisas que me restam,
uma delas é a escolha
sobre as poucas coisas que me restam
e sobre as muitas coisas que eu, precariamente, 
me proponho ser.

das poucas coisas que me restam
uma delas é 
a escolha sobre o que faço
depois que certezas e planos
são reduzidos a estilhaço.

Ilustração por: Art by Shahar


21 de outubro de 2015

Vamos Sair Qualquer Dia

A gente pode sentar sobre a grama e falar de tudo o que deixamos de fazer. Enquanto as pessoas passam, você olha para mim e fala do fundo do seu coração sobre as coisas que realmente pensa. O céu hoje parece tão comum, os dias deixaram de ser mágicos já faz um tempo - esgotamos o limite de encanto deste ciclo da vida.
Talvez seja uma tendência a persistir no erro - eu me predisponho à decepção e não percebo as coisas ao meu redor, eu não consigo assimilar as transformações caóticas do tempo. Hoje, pela manhã, quando eu olhei pela janela vi o céu azul sobre a cabeça das pessoas voltando do mercado com sacolas cheias de vegetais - se não me engano às quartas feiras o mercado recebe frutas frescas. Hoje, pela manhã, as pessoas tinham algum propósito - comprar frutas frescas, esse era o objetivo do dia. Agora passa das três da tarde, eu olho pela janela e vejo as ruas vazias, o dia já se tornou nublado e eu tenho lamentado há tanto tempo que não me lembro de quando não lamentava. Acabou Chorare - Os Novos Baianos sempre me anima nas piores horas.
Se a gente saísse amanhã seria um bom dia - apesar de que eu ache qualquer dia com você um bom dia, amanhã seria melhor ainda, afinal amanhã eu já esqueci do que você fez hoje e me magoou.
Vamos sair qualquer dia para um lugar lotado - quando a gente conversar os arredores não farão a mínima diferença.
Pena que a gente não vai né? As coisas são diferentes fora do meu mundo - Você espera coisas que eu não posso lhe dar e eu nem sei o que eu espero de verdade; começo a me questionar se realmente lhe quero. Eu não sei - essa é a minha conclusão deste ciclo, as coisas parecem muito complicadas e eu jamais poderia ter uma opinião definitiva com alguém como você.
Não é amargura - é apenas observação - eu ainda não lhe confiei o meu coração, e acho que você sabe disso e sabe o porquê.
Vamos sair qualquer dia e tentar - não importa o que, mas vamos tentar fazer alguma coisa de nós dois.
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