27 de agosto de 2015

Um Supermercado na Califórnia


Que pensamentos tenho sobre você, Walt Whitman, enquanto andava pelas ruas, sob as árvores, com uma dor de cabeça, cônscio de mim mesmo olhando a lua cheia.
Em minha faminta fatiga, e consumindo imagens, fui ao supermercado da fruta neon, sonhando com as suas enumerações!
Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras comprando à noite! Corredores cheios de maridos! Esposas nos abacates, bebês nos tomates! --- e você,
Garcia Lorca, o que você estava fazendo perto das melancias?
Eu te vi, Walt Whitman, sem filhos, solitário velho desarrumado, cutucando entre as carnes no refrigerador e observando os garotos da mercearia.
Eu te ouvi fazendo perguntas a cada um: Quem matou as costeletas de porco? Qual o preço das bananas? É você o meu anjo?
Eu perambulei dentre as brilhantes pilhas de latas te seguindo, e o fiz, na minha imaginação, como investigador da loja.
Nós caminhamos pelos corredores abertos, juntos, em nossa solitária e refinada degustação de alcachofras, possuindo cada refinamento congelado, e nunca passando pelo caixa.
Para onde estamos indo, Walt Whitman? As portas fecham em uma hora. Para qual caminho a sua barba aponta esta noite?
(Eu toco o seu livro e sonho com nossa odisseia no supermercado, parece absurdo.)
Andaremos a noite toda pelas ruas solitárias? As árvores adicionam sombra à sombra, luzes apagadas nas casas, nós dois ficaremos solitários.
Será que passearemos, sonhando com a América perdida de amor passando por automóveis azuis nas calçadas, a caminho de nosso silencioso chalé?
Ah, querido pai, barba-cinza, velho solitário professor-da-coragem, qual América você tinha quando Charon desistiu de navegar a sua balsa e você levantou de um banco de fumantes assistindo a balsa desaparecer nas águas negras do Lethe?

Allen Ginsberg

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