2 de agosto de 2015

A Ditadura dos Laranjais


Este é um relato que eu inventei no meio do dia. De alguma mulher forte que existe, ou que pelo menos costumava existir. O amor às revoluções e o azedume do totalitarismo fundem-se numa só mistura. Memórias agridoces assolam o paladar da memória e precipitam neste texto; escrito por mim que fui, mesmo que por pouco tempo, esta mulher, que tinha/tem um gosto por revoluções, ativismo e liberdade, ainda que possua um conceito debatível sobre tais gostos.


Eu me lembro do tempo em que quem governavam eram os laranjais; anfóteros. Tão bons quanto cruéis, sinto saudade de laranjais. De dor e bonança; porque naquela época era apenas velha, hoje sou anciã.
Me recordo que o movimento democrático dos limoeiros não fora nada quando comparado aos laranjais, que apesar de totalitários eram bons para mim, diziam que se apegaram a pequena sobra dos pessegueiros socialistas.
Sim, eu era uma militante, meus namorados também e meus filhos teriam sido. Era eu quem gritava a plenos pulmões na avenida principal que deveríamos combater com todas as nossas forças o totalitarismo na república. Posteriormente eu ajudaria outro regime totalitário a se instalar, irônico não acham? Eu não.
Apesar de opressor, o governo dos Laranjais foi revolucionário, independente do caráter da revolução ou dos meios que foram utilizados para alcançá-la, ela é, acima de tudo, revolução. E eu sempre me defini como revolucionária, antes mesmo de ser mulher, filha, namorada, era revolucionária.
Sinto falta de Laranjais porque eles eram tudo o que me restou de uma família. Eu me tornei uma ativista porque não tinha ninguém para lutar por mim, eu queria lutar pelos semelhantes a mim, e consequentemente ser querida, ser necessária, queria ser alguém para uma pessoa que não fosse eu.
Às vezes cometemos erros pelos impulsos que nos fazem humanos. No meu caso terminei onde estou depois de uma cadeia de impulsos, não é como eles houvessem cessado, apenas estou velha demais para satisfazer a todos. Da minha juventude até meados da minha velhice fui puramente hedonista, um ser que assume o seu hedonismo é não sente vergonha de si mesmo é, consequentemente, revolucionário.
Eu não sou amarga. Posso parecer, a você leitor, mas não sou. É que esta é uma propriedade da nostalgia, soar melancólica apesar de muitas vezes não ser; fui grandiosa no passado, cheguei a um ápice relativamente cedo, o que se sucede a partir daí é um declínio natural que não é necessariamente decadente, apenas inevitável.
Quando havia Laranjais, havia eu. Hoje quem existe é um subproduto de uma sucessão de fatos. Uma nostálgica velha que aceita meros contentamentos, descontente. Eu não sou quem eu sonhava ser. Mas hoje, ante a história, começo a me perguntar se havia alguma chance desde o começo. Talvez o universo queria que eu sonhasse, que lutasse por revoluções e assistisse a suas ascensões e declínios.
Talvez eu fui o que era para ser desde o começo: uma espectadora. Não fui vítima nem criminosa, apenas fui um registro visual das grandes figuras da história contemporânea, e por osmose me tornei uma delas.

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