Diálogos - Pedro
Pedro espera muito de todo o mundo, inclusive de si mesmo. Sofre por ansiedade, porque não acompanham o seu ritmo inconstante, porque ainda está aceitando que há uma grande diferença entre o que sonha e o que realmente existe. Numa noite, conversa com uma velha amizade e reflete sobre os seus defeitos enquanto reforça o velho hábito de precisar justificar o seu jeito de ser.
- Pedro, eu sinto que você cobra demais de você mesmo e muito mais dos outros.
- Como assim?
- Repreendendo quem tá do seu lado, dizendo que eles estão te envergonhando, encarando, tem muitos jeitos, eu não tenho tantos exemplos assim...
- Você acha que é por isso que eu estou só?
- Talvez.
- Mas aí é que tá, eu não estou mais só.
- Não?
- Não. Supreendentemente não.
- Mas será que alguém aguenta tanta cobrança?
- Eu até que não cobro muito, não falo muita coisa. Você tem essa imagem forte de mim.
- Você parece mandão demais...
- Às vezes eu sou, mas não sou a mesma coisa o tempo todo.
- Você é o que, bipolar?
- Não é bem assim, somos vastos, contemos multidões.... É impossível ser só uma coisa.
- Pra mim isso é inconstância, insegurança.
- Pode ser, às vezes eu sou inseguro, às vezes não, nem sempre sou tão confiante, assertivo, mas essa é a questão, são essas pequenas variáveis que nos fazem, não é uma grande constante.
- Ainda te acho exigente demais.
- Será que você consegue ser mais específico?
- Você espera demais das pessoas... O mundo não é como você quer.
- E o que é que eu tenho que fazer? O que não me convém? Namorar alguém que não dê certo pra mim só para pagar de acessível? Ou fazer amizades com gente que vai me entediar em dez minutos?
- Amigo, a gente tem que andar com gente diferente.
- Nós dois somos diferentes nesse aspecto. Você se preocupa em estar bem com todos, eu me preocupo em estar bem com quem em realmente me importo, claro que não vou sair por aí sendo grosseiro nem nada, mas não sou amiguinho de todos e nem quero ser.
- Uma pena.
- Por que?
- É importante manter contatos.... Podem te ajudar no futuro.
- Eu sei, mas não consigo.
- Claro que consegue, você implantou na sua cabeça uma introversão que não existe.
- É claro que existe, não seja insensível. Eu só tenho uma tendência a aumentar as coisas.
- Sei, aumentou demais essa introversão. Agora que tá melhorando.
- Você acha?
- Acho, você mudou bastante.
- Só precisa ser mais dócil, aprender que às vezes a gente precisa se submeter.
- Eu sei que a gente precisa, mas é difícil. Eu gosto de ficar com quem me agrada.
- Infelizmente nada é unanimidade. O mundo tem muita gente insuportável e que nós somos obrigados a suportar.
- Eu já te falei que suporto tanta gente que não gosto...
- E porque você não gosta deles?
- Eu sinto que eles me julgam.
- Eu acho que você se julga demais, consequentemente desenvolve essa pequena paranoia que vira antipatia.
- Você não era de exatas e agora tá com essas análises?
- Pois é né? Mas você é bem assim.
- Eu sei, eu tenho essa insegurança, diminuiu bastante, mas ainda está aqui.
- Ela nunca vai sair, mas quando ela nos impede de fazer o que queremos é uma patologia.
- Tenho trabalhado nisso.
- Eu sei que tem.
- Mas e aí? Quem é que conquistou esse coração exigente?
- É muito cedo pra você conhecer...
- Já é um relacionamento sério? Vai mudar o status no facebook?
- Ai, para! Você sabe que eu acho isso ridículo. E sou tímido demais pra ficar falando disso com todo o mundo.
- Eu sei que você é suuuuper tímido...
Nós dois rimos, sentamos na grama perto de uma mangueira e ficamos assistindo aos fogos colorindo o céu da noite de São João.


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