29 de maio de 2015

O Retorno do Outono

Um permanente estado de transe e uma ideia fixa sobre as coisas. Não, não é uma obsessão, mas a perpassa. Sob o obscuro céu de uma noite de outono, seus olhos pareciam atenuantes de uma alma em brasa. Seus lábios pareciam irremediavelmente confiáveis, dissociaram-se por completo daqueles que outrora apunhalaram-me. Na época eu era convicto de que fui traído, mas passadas estações, após a dor, o remorso remanesce, a dúvida brota dentro de mim como margaridas na primavera. Já não sei mais no que acreditar.
Lembro-me bem de permanecer estático perante a tua ausência, de orbitar em sua magnética personalidade, de ser totalmente manipulado a sentir a paixão de uma das formas mais viscerais e dolorosas possíveis. A tua concepção de relacionamento é puramente hedonista, nunca se importou com as minhas necessidades, até porque fazia questão de suprimir quaisquer necessidades que eu poderia ter com um ego gigantesco. Um elefante na sala de estar, só quem não via era você e eu.
O meu trauma é lento, indigesto. Regurgito, remexo, contemplo e tardo a sarar. Porque quando a ferida é na alma ficamos com duas opções: Ou a alma é permanentemente marcada por uma deformação ou é totalmente recuperada. Não há meio-termo. A minha alma sarou. Os meus olhos, sob eles escorreram lágrimas por muitos dias, em meu primeiro outono considerável tive meu coração despedaçado.
Hoje eu tomo as relações sob um espectro mais sensível, ainda que camuflado. É difícil para mim observar prelúdios de corações partidos, relações fadadas ao fracasso, romances que surgem por conveniência, não desejo. A matéria torna-se consideravelmente desinteressante quando aliada a sentimentos fracos, quase inexistentes.
Nas noites de outono todos os apaixonados voltam para suas casas. Estão menos livres, mas levam buquês de flores e escrevem em cartões sobre um mundo completamente novo, sabendo o que perdem.
E quanto a mim? Eu escrevo doses homeopáticas de amargura nas noites de quinta, vez ou outra escrevo um verso feliz, mas não é tão comum. Não chegou o meu tempo de apaixonar-me novamente, não me entendam mal, estou apaixonado neste momento, na verdade apaixono-me todos os dias, por coisas e pessoas diferentes. Mas a paixão que senti pela primeira vez numa noite de outono é única, tão única que não me atrevi a nomear. É por isso que tenho esperado, não pelos cartões ou pelos buquês, mas pelo sangue quente e revirar do estômago da genuína paixão.

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