Ela me Chamou de Mãe
Voltava à tarde para casa após uma extenuante maratona de aulas, desci do ônibus num ponto lotado e esperava que o fluxo de carros cessasse e me permitisse atravessar a rua. Esperei mais do que previa, o semáforo (ou sinaleira, como chamamos aqui em Salvador) estava quebrado, e eram muitos carros para que arriscasse demais.
Decidi dar um tempo e olhar os arredores, vejo uma propaganda, no ponto de ônibus, de um cursinho pré-vestibular, eles continuam com a mesma há ano, lembro de vê-la ainda quando era primeiro ano e agora no terceiro, acredito que eles levem a sério o conceito de "não mexer em time que está ganhando". Ao lado da propaganda, um grupo de três mulheres, não deveriam ter mais de cinquenta anos, aparentam esperar por um ônibus, quando a mais baixa começa a falar:
- Ela me chamou de mãe, uma das crianças, eu não ligo que me chamem de mãe, mas sabem dessas mulheres? - Neste momento as outras duas balançam as cabeças vigorosamente em concordância, logo em seguida ela continua.
- Elas não admitem que os filhos façam elas verem que são ausentes, lembram daquela dona fulaninha? O menino foi pra emergência, estava morrendo e ela fazendo compras! - Todas elas concordam novamente, mas algo muda, sou percebido por uma delas, a mais falante, me encaram, fazem silêncio por um instante e logo em seguida voltam a conversar, acho que atestaram a minha irrelevância, a minha invisibilidade.
Continuam falando algo sobre mulheres, sobre mães relapsas, mães desnaturadas, mas não ouço, vejo a minha oportunidade de atravessas a rua e não hesito. Em minha curta caminhada até a minha casa e até mesmo depois dela não pude deixar de pensar nas mães tão brutalmente atacadas por aquelas senhoras. Teriam as babás se tornado as figuras maternas fortes nos lares da classe média? Parece que sim, pode soar como um estereótipo, mas babás tornaram-se mães e mães tornaram-se babás. Sem tempo para encontrar seus filhos após o trabalho ou apenas por que queriam fazer algo mais interessante, ao que parece não há tempo o suficiente para que essas mães realizem-se, mas quem poderia julgá-las?
Por mais que seja fácil julgar uma dessas mulheres é importante considerar que não sabemos de nada sobre elas ou sobre seus motivos, esse é um problema de nossa sociedade, tomamos estereótipos como normas invioláveis, ao nos depararmos com o que transcendo o padrão ficamos chocados. Se pensarmos que uma dessas mulheres trabalha quase o dia inteiro para que seu filho tenha uma vida melhor do que ela a situação muda, não é mesmo.
As coisas não como em Hollywood, dessas mães são pouquíssimas que gastam seus dias comprando roupas de grife, e em relação às que o fazem, como poderemos dizer que não é uma forma de escapismo, uma tentativa de preencher algum vazio? Humanos são complexos demais, densos demais para que nos limitemos a estereótipos.
Pensei bastante sobre a situação das babás, sobre as mães, e conclui que não há conclusão. Não posso dizer a um vasto grupo o que fazer, muito menos julgá-lo a partir de um de seus integrantes, é como dizer que todas as laranjas da saca estão amargas tendo apenas provado uma, não faz sentido. É muito fácil julgar mulheres, difícil é ter empatia, é se colocar nos seus lugares.


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