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5 de setembro de 2015

Por Que Não Desistimos?


Por onde quer que andemos nos deparamos com a polêmica, está nas esquinas, nos bares, no mercadinho, e ao lado dela cidadãos ávidos por debates com informações engatilhadas. Discutimos muito sobre a redução da maioridade penal nos últimos meses, e aos poucos pudemos perceber o desabrochar de uma classe preocupante: os inquestionáveis justiceiros urbanos, sejam os políticos que empurram votações sorrateiras ou cidadãos que amarram menores a postes.
Extremismo nunca foi e nunca será a resposta. Ao invés de estimular a violência e a rebeldia sem causa, necessitamos do diálogo, das análises, da percepção para além do evidente; menores infratores são, antes de tudo, menores. Por isso nos enchemos de análises, textos informativos e solução alternativas aos encarceramentos desregrados, tentamos, através de textos, transcender a máxima que visa a destruição do menor; queremos reconstruí-lo, e não o condenar.
O Brasil possui a quarta maior população carcerária do mundo, sendo que 70% dos infratores não são reintegrados à sociedade e reincidem na criminalidade. Todo o barulho que tem sido feito a respeito de “fazer com que os jovens paguem por seus atos” só acelerará o processo do colapso do sistema prisional – No Brasil prisão não ressocializa, muito pelo contrário.
Para a questão da redução, e citando Hobbes, é totalmente válido dizermos que fomos uns os lobos dos outros; o homem é o lobo do homem degradando-o em vários aspectos, no nosso caso foi através de uma série de más decisões. Comecemos pela base: através das más escolas, da ascendente desmotivação dos professores e dos parâmetros nacionais de educação só ganharam certo destaque na época em que o “kit gay” (escola sem homofobia) foi devorado pelos conservadores.
Temos que pensar além da média: não só as nossas escolas estão atrasadas, mas o nosso jeito de ensinar também, as soluções alternativas surgem a partir de pessoas com demandas diferentes, nem todos os alunos suportam ficar sentados durante seis horas, o desafio do professor é tentar adaptar-se e captar a atenção do maior número de alunos possível, algo tão raro nos dias de hoje que aqueles que o fazem tornam-se revolucionários.
Ainda que a escola não corrija a má educação familiar ela é importante na formação do indivíduo como cidadão. É importante que o jovem seja ensinado a pensar a respeito do mundo mediante ferramentas concedidas pela escola e não que aprenda, mecanicamente, conceitos prontos, porque estes serão facilmente substituíveis uma vez que o indivíduo não os criou, apenas absorveu.
Jovens cooptados pelo tráfico, que roubam comida, assaltam ônibus, todos eles correm por um futuro melhor, apesar de terem achado formas diferentes para fazê-lo. Citando Paulo Freire, “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é tornar-se opressor”; o crime, para estes jovens, é uma forma de obter o que lhes foi negado pela sociedade, a educação precária que posteriormente resultou numa geração inteira sem perspectiva de futuros brilhantes, violenta, inconsequente, e assustados com a distopia em seus futuros, os jovens infratores tentam melhorá-los, sabendo, inconscientemente, que os perdem.
Parar os morticínios da juventude propostos pelos grandes conservadores brasileiros enquanto tentamos fazer nossas propostas de trazer lazer e educação aos jovens válidas no combate à criminalidade é exaustivo, porque argumentar cansa, uma hora sentimos vontade de desistir, e só não o fazemos porque desistir destes jovens significaria desistir de nossa pátria, e esta possibilidade está fora de cogitação.

28 de dezembro de 2014

Carta Aberta aos Opressoras



"Quando a educação não é libertadora o sonho do oprimido é ser opressor"

- Paulo Freire

Impressiona-me a falta de empatia e a falta de noção dos velhos críticos, daquelas pessoas que veem um afeminado na rua e soltam algo como "deveria parar de fingir de ser escandaloso, sou a favor dos gays, mas só daqueles com personalidades reais" quem são vocês para ditar o que é realidade? Ou daquelas pessoas que veem um negro e o exotificam, tocam seus cabelos crespos com fascínio e invadem seus corpos, quantas vezes cansei de ouvir pessoas falando "nossa muito bonita para uma negra", ao se referirem a uma mulher negra fazendo questão de destacar sua raça e ignorando a da mulher branca ao fazer o mesmo elogio.
Muitos podem dizer que é besteira, que essas coisas são irrelevantes, mas parecem irrelevantes aos que o dizem pois estes não são afetados, nunca tiveram sua imagem vinculada a coisas negativas, nunca tiveram seu trabalho, seu esforço desmerecidos em função de sua raça, gênero, orientação ou condição.
Vivemos em um país que foi construído pela opressão, toda a história brasileira (e de boa parte do mundo baseia-se nisso) grupos impõe suas crenças sobre outros completamente diferentes e esperam que ajam da mesma maneira, formando uma moral extremamente superficial e deturpada, deve ser seguida apenas às vistas dos outros, apenas comportando-se "corretamente" o opressor observa, quando ele vai embora pode-se agir naturalmente.
Ainda falando de Brasil, gostaria de descrever o "Sonho brasileiro" similar ao "Sonho americano" porém o brasileiro é mais voraz, mais egoísta, não preocupa-se em fingir que gosta do outro ou que preocupa-se com o coletivo, senso de comunidade só existe para ele quando seus interesses são afetados. O sonho brasileiro é o sonho visceral, cruel, mas ainda assim é a realidade, daqueles que fazem questão de agredir os mais vulneráveis para serem aceitos pelos grupos, há uma cultura de violência social gratuita.
Gostaria de refutar também o ceticismo de muitos com relação à relação oprimido x opressor, afinal outro dia vi um garoto "por que que temos que ser divididos em dois grupos, por que não podemos ser iguais?" eu lhe respondo, porque não somos. O falso igualitarismo que é empregado por muitos é apenas uma tentativa de evitar discussões que possam desfavorecer ou que simplesmente não favoreçam determinados grupos. Há movimentos de oprimidos porque estas pessoas são diferentes e são constantemente inferiorizadas devido a determinada particularidade, os movimentos LGBT, feministas, negros e outros não buscam a igualdade para todos, eles buscam respeito pelos que eles defendem, não há nenhum motivo em lutar por pessoas privilegiadas.
As lutas, as correções a paixão pelo discurso são a manifestação do desejo de não ser mais uma estatística, de não ser um dos números que as pessoas olham com descaso no telejornal noturno, é sobre ser reconhecido como um indivíduo que detém tantos direitos contra os privilegiados.
Você não é um opressor por ser privilegiado, você torna-se um quando desmerece as causas, quando ridiculariza pessoas que sabem o que é descriminação e sabem como as pessoas gostam de odiar os que estão em menor número. Não pedimos a sua aprovação, não precisamos dela, mas precisamos do seu respeito e do mínimo de empatia, bases para uma convivência civilizada.
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