Deixe-me Ouvir a Mim, e Não a Eles
Eu realmente não quero ouvi-los, apesar de saber que preciso não quero. Porque não sei se perceberam, mas se repetem demais, a um nível que quando estou perto deles o meu único pensamento é escapar, de qualquer forma possível.
Já falaram tão mal da moça crucificada na parada LGBT, e em todas as discussões a defendi, cansado, amargurado com os LGBTs que crucificaram (mais uma vez) Viviany Beleboni, mas ainda assim permanecia firme, porque é como já disse antes: resiliência é a alma do negócio.
Não gosto de discutir, de desconstruir, nem de ser didático, mas é preciso. Sem didatismo e sem desconstruções não há progresso. Mesmo que sejam lembradas por seus estopins as revoluções acontecem verdadeiramente em suas bases, não tem como melhorar o mundo sem engolir alguns sapos (e vomitá-los também).
Nina Simone costumava dizer que se pudesse teria sido uma assassina, protestado com violência, mas como a música era a única coisa que ela poderia usar ela o fez, ainda que pagando com o próprio sucesso. Não gosto de protestos violentos, e sou completamente contra a violência gratuita, mas como não esperar que manifestantes reajam violentamente quando são caçados por grupos ou massacrados pela polícia? Esperar reações pacíficas quando se instaura regimes de terror é ilusório demais para o século vinte e um.
Às vezes parece que o universo me colocou em estado probatório, e que resistir e perseverar é a única maneira de ser "efetivado" nesta vida. Porque eu não quero mais ouvir racistas, transfóbicos, lesbofóbicos, homofóbicos, xenofóbicos, não quero mais ouvir ninguém cujo único uso da fala é proferir ódio.
Destas pessoas nunca sinto ódio, mas tristeza e cansaço, fico triste por ainda existir gente assim, e cansado de tentar validar a existência alheia, quando escrevo assim parece que estou me martirizando, mas não, faço isso porque sei que existem pessoas que faz o mesmo por mim, e esse é o grande sentido de estar em comunidades minoritárias: ajudar e ser ajudado.
Tento todos os dias ouvir mais a mim e menos a eles, mas não tem como não os ouvir, porque eles são o padeiro, o professor, o chefe, o familiar, o amigo distante, o farmacêutico e o porteiro que faz aquelas piadas que ninguém ri.
É difícil não ouvi-los, mas é fácil responder-lhes, é fácil ser ouvido num mundo em que as vozes do ódio fazem questão de ser ouvidas, é tudo uma questão de ser resistente. Na dúvida persevere.


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