Desconstruindo Lola - Capítulo 1: O Começo do Fim
Já passa das três da manhã, Lola
encara a si mesma no espelho, coloca e tira a calça jeans preta, tão escura
quanto seu tênis all-star. Lola nunca se importou tanto com o visual, sempre
gostou de pensar em si mesma como esta bela e barulhenta intelectual, muito
ocupada para lidar com trivialidades como vestidos de festa e maquiagem para o
dia da foto mas este era seu último ano de escola, e querendo ou não suas
expectativas, seus desejos reprimidos que envolviam o cenário escolar vieram
violentamente à tona, uma ansiedade regida pela popular frase “é agora ou
nunca”.
O relógio avança ao decorrer da
madrugada e Lola sonha acordada, afinal já se deu conta de que não conseguirá
dormir. Imagina os novos professores (anseia pelos apaixonados, que instigam
longos debates entre os seus alunos), os colegas (destes espera que a maioria
seja desconhecida, os do ano passado eram incrivelmente entediantes) e quem
sabe um destes colegas se tornaria algo a mais? Obviamente já estava de olhos
em alguns, mas nada tão sério, Lola era assombrada pela sensação de que nunca
tinha verdadeiramente gostado de alguém, e isto a preocupava (às vezes).
Chega a manhã, e entre trocas de
roupa, devaneios e reflexões, Lola decide ir se arrumar. Coloca a água do café
para ferver e vai tomar banho, seus pais ainda dormem então tenta não fazer
tanto barulho...Não obtém sucesso. Para Lola cantar no chuveiro é tão vital
quanto beber água, não é como se cantasse tão bem, mas isso não a impede de
fazê-lo a plenos pulmões.
Termina o banho, enxuga-se e
veste o figurino repetidamente ensaiado durante a madrugada acrescentando-lhe
apenas a camisa padrão da escola e algumas pulseiras antigas que comprara nas
férias. Sai de seu quarto asseada e com a mochila milimetricamente organizada
régua perto de lápis e borracha perto de corretivo, tudo no seu devido lugar.
Olhos no relógio do celular, já são seis e quarenta? Lola pensa que não terá
tempo de tomar café da manhã, e por falar em café? Será que ela havia tirado a
água do café do fogo? Corre para a cozinha e para a sua surpresa metade da água
havia evaporado, o melhor que ela poderia fazer agora era desligar o fogo e
correr para não perder o ônibus, afinal não poderia se atrasar no primeiro dia.
O ônibus não tarda, mas em
compensação está cheio de homens indiscretos e invasivos (daqueles tipos
nojentos que ficam se roçando nas moças) e de velhinhas confusas (daquelas que
lhe perguntam 40 vezes se o ônibus vai para tal lugar), dadas as opções Lola
prefere sentar-se no fundo. Pede licença a um rapaz de cabelos escuros e jaqueta
mais escura ainda para sentar do lado da janela, ele não se incomoda e lhe cede
o lugar. Lola confessa que acha o rapaz moderadamente (afinal nunca foi dada a
exageros) atraente, daquele tipo artístico e ao mesmo tempo bad boy, mas não confundam, os bad boys, para Lola, não são os idiotas
da escola que objetificam garotas e as tratam conforme o seu bel-prazer, para
estes não há identificação melhor e mais correta do que “idiotas”.
Lola se sente atraída, não
necessariamente de uma forma romântica, mas ela sentia uma súbita e
incontrolável vontade de saber mais sobre esse garoto, de conhecê-lo, vontade essa
que era drasticamente oprimida por sua superficial polidez e a grande falta de traquejo
social. Olha para o lado e vê o que o garoto está escutando “Melancholy Man” do
The Wake que é simplesmente incrível, e para a euforia de Lola ela teve a leve
impressão de ver alguma canção da Gladys Knight como próxima na seleção, era um
gosto musical bom demais para ser verdade.
Dada a grande animação como um
completo estranho Lola tenta se focar em não parecer boba demais ou psicótica,
mas atrapalhada do jeito que é flagrou-se distribuindo sorrisos e olhares para
o garoto durante todo o seu percurso.
Seu estado de transe subitamente
é interrompido pela parada do ônibus, teria que descer na próxima parada, mas e
quanto ao garoto ao lado, ela nunca mais o veria?
Suas psicoses
são interrompidas pelo próprio garoto que levanta-se e anda em direção à saída,
aparentemente ele saltaria no mesmo ponto que Lola, que por sua vez não hesita
em levantar-se também.
Os dois descem
e seguem o mesmo percurso, Lola permanece tensa e caminha um pouco atrás do
garoto, subitamente ele entra em sua escola, tira a jaqueta e revela a camisa
do uniforme, de fato ele estudaria em sua escola, ela fica radiante, mas deixa
para comemorar dentro do prédio, afinal não se fica radiante em vias públicas,
há sempre o risco de atropelamentos.
Caminha para
sua nova sala, ingênua, desconhece o quão entrelaçada sua história ficará com o
garoto do ônibus e o resto da sala...


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