23 de dezembro de 2014

Resenha: Paris is Burning - Além dos Estereótipos

Eu já assisti Paris Is Burning inúmeras vezes e o filme sempre tem o mesmo impacto emocional em todas elas, por isso e alguns outros motivos que comentarei neste texto é que esse é um dos meus filmes favoritos.
Paris is Burning retrata a lendária cultura de Drag Queens nova-iorquina, a vida noturna, e a realidade de gays e transexuais nos anos 80. Vivendo à margem da sociedade e em guetos, gays, drag queens, transexuais tinham um enorme senso de comunidade e tratavam uns aos outros como família e é essa família que é representada em Paris Is Burning, os bailes, as famílias de drags, o escapismo da vida noturna e os inúmeros sonhos que foram destruídos por uma sociedade opressora e intolerante.
Dorian Corey
O filme começa com várias pessoas se reunindo para um baile, e explica, bailes são competições em que drag queens reúnem-se e competem entre si em diversas categorias, nas palavras de muitos a preparação e a ansiedade que se passa antes de um baile é similar (ou até maior) do que se sente antes do Super Bowl e a sensação de receber prêmios é como receber um Oscar. O bom do filme é que não mostra somente todo o glamour e opulência ("OPULENCE, YOU OWN EVERYTHING!")  que são esperados pelo espectador, mas também a importância social daqueles eventos, como as "casas" de Drags servem como acolhimento para muitos jovens que foram expulsos de casa ao se assumirem gays, os bailes que servem como uma válvula de escape da sociedade cruel, como é dito no filme "Nos bailes você pode ser qualquer coisa, qualquer pessoa..." e "Esses bailes são a única coisa que muitos desses garotos têm".
Obviamente também são explicadas as gírias já consolidadas na cultura gay oitentista e posteriormente incorporada na cultura pop, tais quais:

"SHADE"
"Eu não digo que você é feio, mas eu não preciso dizer que você é feio, porque você sabe disso"
 O conceito de "Shade" está implícito não é mesmo?

"VOGUING"
Voguing é uma dança moderna que teve origem na cultura de bailes nova-iorquina, mais especificamente no Harlem. Tem grande destaque no filme, inclusive nas cenas em que dois competidores se enfrentam num duelo de dança, mas nunca se tocam, vencendo aquele que tiver maior atitude e criatividade nos passos. É interessante lembrar que o famoso vídeo Vogue da Madonna foi coreografado por dois membro da casa "Xtravaganza" (José e Luís) também mostrada no filme. Eu poderia ter colocado o vídeo da Madonna ao me referir a Voguing mas preferi esta música da Azealia Banks por ser uma canção que fala sobre a cultura de bailes, além do incrível vídeo feito por um fã com cenas do filme.

Fora dos bailes a vida não é tão glamourosa, em uma cena Venus Xtravaganza especula que 90% das drag queens seriam prostitutas, uma associação comum no imaginário popular, de que as drag queens, travestis, transexuais são prostitutas porque querem, mas estas só submetem-se a tal trabalho porque lhes são negadas oportunidades de trabalho, são descriminadas por seu gênero, ou nos casos das drag queens por sua orientação sexual e o que lhes resta é satisfazer homens sexualmente reprimidos noites afora.
Gostaria de destacar Dorian Corey e seus posicionamentos geniais, em uma das cenas ela fala sobre como divas negras são estigmatizadas, como drags só querem ser "Marilyn Monroe" e outras divas brancas,eu achei essa observação genial e de certa forma atemporal, vejo hoje a maioria das princesas brancas, e bonecas brancas, não há representatividade, as crianças crescem sem nenhuma diversidade racial em brinquedos e quando há não há variação dos traços dos bonecos, são praticamente os mesmo bonecos em tons de pele diferente.
Mas voltando a falar de Dorian Corey, legendei uma de suas cenas, particularmente acho uma das mais emocionantes do filme, vejam abaixo.


Muitos diriam que "Paris Is Burning" reforça estereótipos, retratando gays fazendo festas, sendo escandalosos, afeminados, para aqueles que tiveram este pensamento antes e depois de ver o filme lhes digo: "Eles estão sendo humanos". O filme tem a grande carga emocional por mostrar que muitos gays são afeminados, escandalosos, festeiros sim, mas é somente uma vertente da personalidade de muitos destes, eles têm sonhos, problemas, famílias e são pessoas que passam por situações tão complexas ou tão alegres quanto qualquer outra pessoa, que drag queens e transexuais não tem vidas fáceis, que sofrem e que não são felizes como imaginam os populares e se não os são é porque as pessoas as marginalizam as deprimem.
Paris is Burning é um divisor de águas, e tornou-se ao mostrar que a comunidade LGBT vai além dos estereótipos perpétuados, que é humana, que é uma família e merece respeito.

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