Christmas, Calories and Capitalism
O natal supostamente é uma época de união, de celebração e alegria, porém o que não se fala são os bastidores desta comemoração, as disputas em supermercados, correria para busca de presentes em shoppings, engarrafamentos quilométricos e muito, mas muito drama.
Acordo às 5 horas da manhã com o bater de panelas, olhos sujos no relógio do celular, não, o tempo ainda não chegou de completa paz, o tempo ainda é de rabanadas, panetones e uvas passas. Tomo meu café, um pouco mais doce do que o normal (é preciso de um pouco mais de doçura para sobreviver às festividades) e ligo o computador, escrevo um pouco, checo as minhas redes sociais e uns 30 minutos depois percebo que teria que ir ao mercado ajudar com as compras, não preciso de calendário, sei que o dia é 24/12, véspera de natal, mas jamais imaginaria o que estava a me esperar no mercado.
O percurso não é longo, chegamos rapidamente, porém logo na entrada, um sinal, os carrinhos estavam todos ocupados! Talvez indicando que deveríamos voltar antes de nos arrependermos de adentrar as portas do inferno da loja, e minha teoria confirma-se quando entramos, rapazes histéricos, velhinhas confusas, vendedores agressivos, o espírito natalino está no ar.
Não demoramos muito para achar um carrinho porém a primeira provação não demora, pegar maçãs em meio a pessoas desesperadas para fazer as tradicionais receitas de natal pode ser mais perigoso do que se pensa, ainda mais se formos levar em consideração que a maioria das maçãs não estava boa. Às vezes, quando pegava alguma maçã que estava na mira de um trio de senhoras elas me encaravam tanto que eu me apressava para pegar as maçãs, e por ter sido mais rápido e ter pego as melhores maçãs primeiro lhes garanto que elas não cultivaram as mais positivas opiniões sobre mim...Depois das maçãs ainda tinha muito a ser comprado mas felizmente havia uma lista, era confusa, rabiscada, com itens repetidos mas ainda assim era uma lista, e a seguimos. Dada a escassez e à ferocidade dos consumidores é importante ser rápido, os refrigerantes estavam sendo praticamente pilhados, eu me lembrei daquelas cenas de filmes de zumbi em que os cenários são pós-apocalípticos e os recursos são poucos, crianças gritando histéricas por chocolates? NOT TODAY SATAN, NOT TODAY! As mães logo lhes enchem as mãos com garrafas da Coca-cola e as mandam em direção ao carrinho (com sorte elas poderão pegar um tic-tac na fila).
Como trilha sonora não tem nem "All I Want for Christmas Is You" da Mariah ou "Então é Natal" da Simone, mas sim aquela moça dos anúncios (que tem a voz surpreendentemente aguda) gritando no microfone que "O balcão de eletrônicos é SOMENTE para eletrônicos" olho para o balcão e tinha gente tentando passar até Peru no balcão e os atendentes olhando para o povo com uma cara de:
Seguimos caminhando pelo mercado e pegando as coisas da lista (as que achamos afinal o mercado estava sendo praticamente pilhado), no caminho encontro alguns dos meus vizinho e conhecidos que quando direcionam olhares para mim transitam de uma expressão de desespero e apreensão para um rápido sorriso de cumprimento e voltam a fazer suas compras de natal.
Uma coisa que achei curiosa foi que não havia nenhuma criança em carrinhos, o lugar das crianças foi ocupado por caixas e caixas de cerveja, estas estão no chão e sendo constantemente puxadas pelos pais para que não fiquem distraídas pela seção de brinquedos.
Passaram-se 3 horas, ao chegar ao caixa sentia como se fosse 13, é importante perceber que os caixas preferenciais estão aceitando a todos, aparentemente não há preferencialidade no
- Minha filha, aqui faz recarga de de celular? - Nesse momento alguém da fila grita "Só podia ser velho", e a caixa responde:
- Não, a gente não faz.
- Mas vocês faziam há 2 semanas atrás...
- Não senhor, a gente nunca fez.
- FAZIAM SIM! - Nisso a voz dele já estava alterada, e prosseguiu:
- Eu tenho que pegar um ônibus pro interior ver minha família, não posso ir com o celular descarregado, meu ônibus sai daqui a pouco!
- Desculpe senhor, não posso lhe ajudar... - E ele reage da forma mais imprevisível possível, sai furioso e esbravejando:
- Essa puta, esse caralho desse mercado, que desgraça.
Todos na fila ficam perplexos, as baguetes compradas para a rabanada caem assim como os queixos da maioria da fila, eu não me esforço para fingir estar desaprovando o idoso, pelo contrário, mas fico muito surpreso com tudo aquilo. Pagamos, enfrentamos a violência do tráfego e chegamos em casa, não tivemos maiores problemas depois daí.
Comecei a escrever a crônica na noite do dia 24 enquanto os convidados não haviam chegado, a minha véspera de Natal foi boa, consideravelmente monótona, mas ainda assim boa, termino agora esta crônica saboreando as sobras da noite passada e já começo a me preparar para o Natal do ano que vem.



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