Diálogos - Roberto
Roberto é um amigo meu. Sob um pseudônimo, mas ainda assim
um bom amigo. Esses tempos temos conversado bastante, nós nos parecemos em
alguns aspectos, sobretudo no modo que encaramos a iminência da vida adulta.
Sob tanta pressão, manter-se firme ao que acredita é revolucionário.
Nunca gostei de gente muito de gente certinha, vorazes
corretores ortográficos, politicamente corretos que não saem do papel (ou do
teclado), papagaios de extremismos entre muitos outros. Num ambiente repleto
das pessoas que me repelem, Roberto é alguém com quem posso falar livremente,
sem correções e com o nível mínimo de empatia que é esperado de seres humanos.
- Pedro.
- Oi.
- Como você começou a escrever?
- Tipo, sem ser na escola?
- Sim.
- Foi mais ou menos na sexta série. Eu tirei uma nota bem
alta em redação e a professora falou que eu deveria investir mais nisso, como
lazer.
- Eu lembro dela, Larissa, né?
- Sim. E aí eu fui escrevendo umas coisas bem curtas, eu nem
guardei. Só no primeiro ano, um dia eu estava indo para a escola e eu pensei
numa história, sobre a morte um homem bem triste.
- A vontade de morrer por estar acordando de manhã cedo era
tão grande que precisou criar uma história?
Nós dois rimos e eu continuo:
- Foi muito estranho como eu pensei nisso, lembro que era
outono e outono me faz pensar em morte. Depois a Morte se transformou numa
mulher, Y, você leu a história.
- Ah sim, e você terminou?
- Não, eu não consigo escrever séries.
- Por que?
- Desanimo.
- Perde o rumo?
- Também.
- Sei como é.
O diálogo tem uma pequena pausa, e Roberto continua:
- Queria escrever sobre as coisas que eu sinto e não falo
pra ninguém.
Eu faço silêncio, mas não é um silêncio de julgamento, é
empático, e isso dá segurança a Roberto para continuar.
- Eu sinto que preciso falar sobre certas coisas, mas eu não
consigo falar, então acho que terei que escrever.
- Isso é bom. Escrever é bom, me faz bem. Apesar de eu
aparentar ser uma pessoa contagiante e alegre...
Neste momento Roberto ri e discorda. Eu rio também e
continuo.
- Apesar disso sou muito melancólico. Eu choro pelo papel,
para mim escrever é terapêutico. Talvez possa ser pra você.
- Quem sabe.
- Você pensa em escrever histórias também?
- Não, só coisas minhas. Acho estranho como as pessoas acham
inspiração para escrever histórias, como você consegue?
- Tem vezes que eu tô olhando ao meu redor e eu vejo alguém
estranho ou engraçado e eu começo a pensar sobre essa pessoa, como ela vive.
Tem outras que simplesmente penso em coisas do nada. Eu penso em muita coisa durante o dia, por
isso que às vezes fico rindo sem ninguém ter contado uma piada, eu meio que me entretenho.
- Que estranho isso.
- É demais, eu sempre fui estranho, mas é bom.
- Ser criativo ou ser estranho?
- Os dois. Se bem que para mim sempre foram a mesma coisa.


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