25 de janeiro de 2015

Um País Sem Memória



Certa vez comentei com uma pessoa que como escrevo muitos poemas à mão acabo perdendo alguns, mantenho um acervo, mas é muito difícil (para mim) ser organizado. Essa pessoa me respondeu "Tantas produções perdidas, é como um país sem memória", mesmo que tenha sido num tom brincalhão essa frase me fez pensar, isso acontece muito comigo, quando alguém fala algo, mesmo que despretensiosamente, e me soa bem acabo pensando naquilo o dia todo, algumas vezes a semana toda.
Sentei hoje pela manhã neste domingo nublado e decidi que iria escrever um poema, não tinha inspiração nem a mínima ideia do conteúdo até que me vem a mente, "um país sem memória" e comecei a escrever com a única certeza de que o título seria "Um País Sem Memória".
No final o poema acabou tendo um foco direcionada para a questão indígena, mas eis a beleza dos poemas, a imensidão das palavras acomoda tudo o que se possa sentir.


Um País Sem Memória


Cantam os aborígenes
Cingem, aguardando o pior
Correntes e mordaças
Silenciam os aflitos por mentiras e trapaças

Uma geração inteira submetida à melancolia
Os índios cabisbaixos
Ocas vazias
Virulência nos pastos

O rio, corre, dobra, manobra
Perpassa o tempo e retrocede
Anômalo fluxo
Esdrúxulo sentimento

Um país sem memória
Aceita o progresso retrógrado do desconhecido
É obrigado a ver o fardo do homem branco
Em plenas terras tupinambás

Demarcar a memória
E enjaula-la por morticínios
A anêmica e impotente memória
Não é história não lhe foi permitido

Não lhe foi permitido se manifestar
Não lhe foi permitido empoderar seus filhos
Os relapsos filhos de um tempo mudo
De um tempo que não tem tempo pra Tupi ou Caiça(ra).

Pedro


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