Resenha - BoJack Horseman
Lembro-me da estreia da promissora "BoJack
Horseman", as opiniões eram bem divididas e não havia um consenso sobre a
qualidade da série (pelo menos naquela época) e eu como bom fã de séries me
atraio pelas controversas. Dei uma chance ao assistir ao piloto, uma grande
decepção afinal eu esperava algo cômico, o que, inicialmente, não é visto na série.
Passaram-se meses e o peso da decepção sumiu,
entrei em férias e cacei séries novas, assisti aos 148 episódios de
"Hunter x Hunter (2011)" em 3 semanas (indispensável para os fãs de
anime) e ainda assim queria alguma outra série capaz de me prender. Eis que ao
ver sugestões me deparo com o especial de Natal do BoJack e me lembro da
decepção, deveria dar outra chance? Me arrisco, vou além do episódio piloto e o
resultado é gratificante.
Logo no segundo episódio há uma crítica ao
jornalismo superficial, sobre como nos deixamos levar por "o que as
celebridades fizeram e/ou disseram" e nos esquecemos de dar atenção a
questões realmente importantes como o meio ambiente ou política, confesso que
ver uma crítica tão clara me animou bastante.
Aos que gostam de comparações garanto que tentarão
citar "American Dad", "The Simpsons", "Family
Guy" entre outros, mas estarão perdendo seu tempo, afinal comparar
animações apenas por pertencerem ao mesmo gênero faz tanto sentido quanto
comparar um corvo e uma escrivaninha (vide Lewis Carroll). A princípio eu
admito que tentei fazer comparações, mas achei tão diferente das animações que
assisto que não consegui e nisso percebi, a grande sacada de "BoJack
Horseman" é ser não-convencional, piadas que não recorrem aos desgastados
estereótipos de "Family Guy" ou ao humor que muitas vezes pode parecer
óbvio como ocasionalmente vemos em "The Simpsons" mas ao ceticismo,
às relações não-convencionais, aos clichês e às coisas que evitamos falar
justamente por serem a verdade (que é, inevitavelmente, incômoda).
A trama é ambientada em Hollywood e se passa nos
dias atuais retratando um melancólico e cético protagonista que lida com o
declínio de sua notoriedade, após ser um grande sucesso ao estrelar um sitcom
nos anos 90, hoje BoJack luta contra o alcoolismo, solidão e principalmente
contra o anonimato.
Por se passar em Hollywood já era de se esperar que
houvesse críticas às celebridades e à mídia frequentemente. Umas das
personagens em especial me chamou a atenção, Sarah Lynn foi uma das colegas de
BoJack num sitcom bem-sucedido. estrela mirim, cresceu sob os holofotes e não
demorou muito até que se tornasse estrela adolescente e um fenômeno pop. Hoje,
assim como BoJack, lida com o declínio do sucesso, e dada tamanha futilidade
mergulha em drogas, álcool e escândalos, mas afinal, não é este o clássico
estigma da estrela mirim?
Mais divertido do que Sarah Lynn é o superficial
âncora do jornal local que abandona todas as questões relevantes para se
envolver com escândalos de celebridades, e BoJack alimenta a sede de escândalos
do jornalista quase que involuntariamente.
Não contarei mais detalhes para que acompanhar a
série seja uma agradável surpresa, outro ponto em que BoJack Horseman se
diferencia de outras séries citadas anteriormente, ela é linear, caso não
entendam o que digo é: os acontecimentos do episódio 3 influenciam no 5, por
exemplo. Em séries como "The Simpsons" as histórias costumam começar
e ter fim em apenas um episódio, raramente são mencionadas em posteriores, um
estilo que tem sido adotado durante muito tempo por muitas séries e, lentamente,
vem sendo rompido.
Recomendo "BoJack Horseman" a todos os
críticos, aos céticos, aos que gostam das coisas estranhas e que estão cansados
de humor baseado (apenas) em estereótipos, a série consegue fluir com leveza mesmo tendo
um personagem consideravelmente denso, o que é bom, afinal mesmo tão crítica é
importante lembrar que ainda é uma comédia. Alternando dos mais simplórios aos
complexos diálogos, é a série ideal para os que querem dar algumas risadas mais
ainda assim fazer profundas reflexões.




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