18 de dezembro de 2014

["Y"] Capítulo 1 - "Onde abundam as dores brotam os licores"

http://oblogcliche.blogspot.com.br/2014/12/y-capitulo-1-onde-abundam-as-dores.html
"Caro Pablo,

Ontem à tarde estava passeando por Santa Mônica quando passo por aquela livraria café, "Stavros", onde eu, você, Melanie e Guilherme costumávamos tomar café, observar os pedestres, o pôr-do-sol e ler as antologias de Neruda e Drummond. Desço do carro, atravesso a rua de pedras e entro na livraria. Sou recebido por aquela atendente que força um péssimo sotaque francês.
- Bonsoir monsieur Dênis. - Me cumprimenta a atendente
- Boa tarde. - Respondo-lhe sem adotar estrangeirismos.
- Procura algo específico? Será que eu posso lhe ajudar?
- Não, muito obrigado. - Respondo e me dirijo às grandes estantes de mogno. Você ainda se lembra das estantes de mogno? As que eles colocam os mais vendidos...
Vejo diversos livros de conhecidos e amigos, de Melanie, de Guilherme, Elisa, Hugo, os meus (obviamente), porém não te vejo.
Certa vez meu editor me disse que todos os artistas são egocêntricos, que precisavam ser para aguentar as críticas da multidão, mas você querido amigo, subestimou a tudo e a todos quando ao receber o mínimo de reconhecimento subestimou a todos nós.
Se a comunidade literária te rejeitou, se você foi totalmente excluído, o único responsável é você, recebi seu e-mail enfurecido, falando que estava endividado, deprimido, adivinha? Eu não ligo.
Nossa amizade só vive na memória, não temos mais nenhum tipo de relação, e quando lhe falo isso também falo pelo grupo. Não tente estabelecer contato futuramente.

Grato, Dênis."


 Este é o e-mail que acabo de receber de um dos meus ex-amigos, isentando-se da culpa do meu fracasso e atribuindo-o a mim mesmo, esperava muitas coisas de Dênis, mas jamais acreditaria que ele seria tão cruel comigo...Que os meus amigos, tão queridos enquanto eu era uma estrela iria me dar às costas durante a minha pior fase. 
Eu fui catapultado para o glamouroso mundo da fama depois de lançar "Alcaçuz", um livro sobre um serial killer que era dono de uma loja de doces. Foi aclamado pela crítica, fui a diversos programas de televisão e estive em várias listas, e quase fizeram um filme, acontece que cheguei a receber uma proposta, mas depois que alguns dos meus e-mails e textos foram hackeados e expostos (neles ofendo muitas pessoas "importantes") acabei sendo "exilado" do mundo artístico, tendo até a proposta do filme cancelada.
Eu estou em casa, as paredes e as janelas estão sujas, só não superam o chão. Sento-me às 4 da tarde para tentar escrever e acordo às 9 com uma garrafa vazia em minhas mãos, sem dinheiro, sem emprego, sem criatividade, sem nada a não ser o meu alcoolismo e uma conta pendurada no bar da esquina. Decido aumentar esta conta e ir ao bar.
Moro em um prédio antigo, no centro da cidade, as escadas são de pedra, bem antigas, não é um prédio ideal para bêbados, preferiria elevadores, facilitariam muito a minha vida...Poderia estar morando em um prédio muito mais moderno, na orla, mas fui convencido por pseudo-boêmios de que o centro era o único lugar digno de um escritor, hoje discordo fortemente.
É uma noite chuvosa de quinta, e conforme desço as escadas torna-se mais forte o cheiro de gato molhado e naftalina, chego ao térreo e me deparo com Dona Ana me encarando, se minha vida fosse um daqueles filmes americanos de colegial, eu seria uma espécie de esquisitão e Dona Ana seria uma daquelas garotas que fazem bullying, participante de uma espécie de "Gangue da terceira idade", pensando bem a realidade não é muito diferente, considerando que eu sou uma espécie de esquisitão e de que 60% dos moradores do meu prédio são idosos (não sei onde estava com a cabeça quando acreditei que um prédio em que a maioria dorme antes das 21h é ideal para boêmios). Passo pelo frígido olhar de Dona Ana e seu gato e sigo para a rua.
O bar não é muito distante do meu prédio (finalmente alguma vantagem), em 4 minutos de caminhada chego lá. Não é um daqueles barzinhos em que os estudantes de medicina se reúnem às sextas feiras à noite, é levemente sujo, e de fachada decadente, o letreiro é iluminado (mesmo com uma ou outra letra queimada) nela está escrito "Pandora" em um horrível tom de verde.
Entro no bar, vejo homens decadentes, embriagados, sujos, desorientados, a única diferença entre nós era de apenas algumas horas. Tomo uma mesa, me sento e observo o ambiente mais um pouco, uma das coisas que eu amo no álcool é que ele faz tudo ser tão apropriado, enquanto alcoolizado você não se importa com o que as pessoas vão pensar, o com o que seria "impróprio", simplesmente não liga. Avisto Renato, um velho garçom que tornou-se um amigo para mim, bêbados e barmans são grandes amigos desde a criação dos bares e serão até que o último seja fechado, lhe peço uma dose de whisky, pura, e lhe falo para que não deixe o meu copo seco, sim, esse é o jeito correto de se beber.
Não sou nenhum Hemingway, porém gosto de fingir que sou, saco o meu pequeno bloco de notas e começo a descrever o ambiente ao meu redor, romantizar o vômito, o nojo dos alcoólatras, trabalhadores que passam suas noites de quinta tentando escapar da dura realidade, começo muito bem, e dou continuidade, poderia transformar em um artigo e enviar para alguma revista (nunca se sabe), mas meu plano logo falha, lá pelo sétimo copo já estou desenhando borboletas, sóis com rostos e bonecos palitos. 
Olho para Renato e sorriu, um sorriso lerdo, comum aos bêbados, em pouco segundo sinto vontade de lhe agredir sua simpatia, seu sorriso no rosto mesmo trabalhando num lugar destes me incomoda. Renato é um bosta, eu não devia me preocupar com bostas como ele.
-FODA-SE! - Grito preguiçosamente no meio do bar, todos os bêbados me saúdam, alguns até gritam "foda-se" junto. Sinto integrado naquela comunidade de homens infelizes, eles me entendem, são meus irmãos de bebedeira e de alma, podem não ser poetas como eu, mas entendem minha dor.
Eu passo uns sete minutos encarando um velho banquinho de bar e a este momento já perdi a conta de quantos copos já tomei. Eu não acho palavras para representar o quão bêbado eu estava quando uma mulher entra no bar, se de alguma forma conseguissem misturar Jessica Rabbit e Linda Evangelista numa só figura resultaria nesta moça. Assim que pisou naquele bar atraiu a atenção de todos os bêbados, alta, curvilínea, de aparência levemente juvenil (aparentava ter uns 19/20), longas pernas, cabelos castanhos longos, boca carnuda, imaginei que uma mulher dessas não iria querer nada com um alcoólatra, quarentão e fracassado.
Tento voltar aos meus rabiscos e ao meu whisky porém não consigo evitar de olhar para a tal mulher e acabo fazendo-o involuntariamente, neste momento estou mais desinteressado do que nunca em observar os bêbados, todos os meus olhares perdidos são direcionados à mulher, fico nesta confusão por um certo tempo até que ela olha para mim de volta, congelo observando-a, parece que fica mais bela a cada vez que a vejo, ficamos um tempo encarando um ao outro até que ela senta-se ao balcão e começa a conversar com Renato. Me viro para a mesa e começo a encarar o whisky, como pensei que ela se interessaria por mim, tão patético, tão...
- Este lugar está vago? - Tenho meus pensamentos pessimistas interrompidos pela mulher com dois copos de whisky.
- Não. - Respondo-lhe surpreso.
Ela se senta, toma um gole e logo me fala:
- Falei com o barman, ele me disse que é o seu favorito. - E empurra o copo em minha direção.
- De fato. - Respondo sorridente.
- Falou também que está aqui em muitas noites... 
- Ele sempre falou demais... - Ela ri.
Não perguntamos os nomes um do outro, vou chamá-la de "Y" para evitar ser repetitivo.
Tomamos mais algumas doses, ela parece aguentar a bebida muito melhor do que eu, começa a passar a mão em meu rosto, em meu corpo, e logo pergunta-me se quero sair dali, lhe digo que moro perto e ela sugere sairmos dali em direção a minha casa, e o fizemos.
Deixei a conta pendurada (como sempre) e Renato estava muito ocupado para se importar (como sempre). Caminho pelas ruas de pedra desertas com meus braços ao redor de Y, sinto-me incrível, subimos as escadas (surpreendentemente o cheiro de gato molhado desapareceu).
Entramos, lhe digo que pode ficar à vontade e pergunto-lhe se ela gostaria de alguma coisa, ela me pede uma bebida, vou até a cozinha e lhe pego uma, quando volto à sala lhe entrego, ela me abraça e sinto uma pontada, como se algo tivesse me atravessado, passo a mão em minha barriga e o sangue está a escorrer, a expressão de Y muda de afetuosa e inocente para fria e indiferente, eu caio no chão e minha última visão antes de desmaiar completamente é de Y caminhando até o meu quarto calmamente, ela entra lá e depois tudo se escurece.

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